Vida de repórter

O texto abaixo foi publicado na revista Press, edição 127, em 2010, logo que saí, por vontade própria, do Correio do Povo.

Fui provocado pelo editor Marco Antonio Schuster, velho companheiro dos tempos da Folha da Tarde. Na verdade, me senti homenageado pelo Schuster. A quem sou grato pela oportunidade de contar um pouco da minha ‘Vida de Repórter’, título da seção da excelente publicação do abnegado Júlio Ribeiro.

Bem, se tiverem paciência leiam até o fim, ou fiquem mesmo só no título, que sintetiza minha trajetória na reportagem:


Ilgo Wink: incansável, e insaciável, na briga pelo furo

Em 1976, no meio do curso de Jornalismo da Ufrgs, fiz estágio no Diário de Notícias, que estava em declínio, agonizando. Entrei na editoria de esportes. Jorge Mendes era o editor. Pato Moure o setorista do Grêmio. Substituí o Wianey Carlet, que trocava o Diário pela rádio Gaúcha, no Inter. 

Foi legal, porque convivi com grandes ídolos do futebol gaúcho, jogadores que eu costumava vaiar nos grenais e que só me faziam sofrer nas arquibancadas do Olímpico. Saí do jornal na terceira vez que o motorista da empresa não me buscou no Beira-Rio, no final de tarde, noite chegando. Na primeira, voltei de ônibus. Na segunda, ganhei carona do Falcão. Na terceira, fui para casa e nunca mais entrei na redação do Diário, onde fiquei uns dois meses.

Não perdi tempo. Nessa idade, a gente tem muita pressa – hoje o guri entra na faculdade e já no primeiro dia corre atrás de um estágio.

Entrei na Folha da Manhã, logo depois da crise que culminou na debandada do Ruy Ostermann e de outros jornalistas talentosos. Meu editor era o Rogério Mendelsky. Editoria de geral. Fiz alguns bons trabalhos. Assinei matéria de uma página sobre o fechamento da livraria Coletânea. Foi a primeira que levou o meu nome. Fiquei todo orgulhoso. 

Acho que o pessoal gostou – ninguém me falou nada, e também não recebi nenhum tipo de orientação, e sentia falta disso -, porque logo fui escalado para cumprir uma pauta sobre turismo na Serra gaúcha. Foram cinco dias de galeto, polenta, salame, queijo e vinho. E muito pó, porque eu decidi sair do circuito tradicional e me embrenhar pelo interiorzão de Caxias, Bento, Garibaldi, Veranópolis. Descrevi minhas descobertas numa série de reportagens. Senti que ali era o meu chão. 

Foi então que passei num concurso público federal, Banco Central. Pedi demissão, acreditando que, com mais dinheiro no bolso, poderia viver sem o jornalismo. 

Descobri que não conseguiria sobreviver sem essa ‘cachaça’ quando estava perto de me formar, no final de 1978. Sucumbi à tentação quando o Júlio Sortica, colega da Fabico/Ufrgs, me disse que estava saindo da editoria de esportes da Folha da Tarde. Ele e o José Evaristo Villalobos, o Nobrinho, se transferiam para a Zero Hora.

O Sortica sugeriu meu nome para o editor, o inesquecível Jair Cunha Filho, um sujeito generoso, amigo, competente. Fui fazer um teste. O Jair me deu a pauta: cobrir o treino do Inter de manhã, para a Folha da Tarde Final, que saía à tarde. 

Era um treino sem graça, trivial. Difícil de encontrar um ‘gancho’ interessante. Mas eu estava decidido a descobrir algo novo. Não iria voltar para a redação com ‘abobrinha’, de jeito nenhum. Foi então que vi o Mica, um ponta do time júnior, veloz, bom cruzamento, chute forte. O Inter estava perdendo – ou já havia perdido – o Valdomiro. Ah, não tive dúvida. Fiz a matéria em cima do Mica, apontando-o como provável sucessor do velho ídolo.

O Jair abriu página com a minha matéria e uma foto em três colunas do Mica. Eu estava contratado. Assinei no dia 9 de outubro, um pouco antes de concluir o curso. Larguei o emprego público. A ‘cachaça’ havia vencido.

No domingo, Mica estreava no time colorado e eu na cabine de imprensa do Beira-Rio. Do meu lado, o grande Fernando Goulart, meu guia e meu mestre na arte de fazer setor. Torcia pelo Mica, não por ele exatamente, mas pela minha matéria. A partir daquele dia eu deixava de ser gremista. Meu time era minha profissão. Eu era Ilgo Futebol Clube.

Lá pelas tantas, um colega, repórter da revista Placar na época, fez um comentário ironizando a “matéria da Folha Final enaltecendo o Mica como sucessor do Valdomiro”. Ouvi algumas risadinhas. Ninguém sabia que eu era o autor da matéria, ao menos penso assim até hoje. Minutos depois, Mica cobrou uma falta e fez um golaço, um chute forte, ao estilo de Valdomiro. Foi a primeira vez que vibrei com um gol do Inter. O Fernando, que estava comigo, entendeu minha alegria.

Três meses depois, em janeiro, boa parte da turma em férias. O Francisco Vitorino, editor interino, entra na redação dizendo que a Folha da Manhã – se não me engano, havia um revezamento nas viagens dos dois jornais – não tinha ninguém para acompanhar o Inter no torneio de Verão de Mar Del Plata, e lamentando que a empresa não tinha um repórter de jornal na excursão. 

O setorista titular era o Fernando, em férias, e eu recém estava começando. É claro que ele nem cogitava de me escalar. Mas eu me apresentei, lembrando a velha máxima do técnico Gentil Cardoso, anos 50: “Quem pede recebe, quem se desloca tem preferência”.

– Seu Vitorino, eu sou rápido pra fazer as malas -, arrisquei.

Ele arregalou os olhos, coçou o bigode. Que foca atrevido!, deve ter pensado.

– Está bem, Ilgo, vou sugerir o teu nome -, resignou-se.

Dias depois eu viajava com o experiente fotógrafo Waldomiro Silva para a minha primeira viagem ao exterior como jornalista.

Foi um sufoco. Poucas vezes escrevi tanto em tão pouco tempo. Eu tinha que mandar material para fechar duas páginas diárias da Folha da Tarde. A Folha da Manhã e o Correio do Povo também usavam os textos. E não havia essas facilidades de hoje, computador, internet. Escrevia no telex, gravava o texto numa fita de papel, depois discava para o jornal para fazer a transmissão. O serviço de telefonia também não era lá essas coisas. Algumas vezes, as matérias menores eu transmitia direto, sem gravar, por causa do horário de fechamento dos jornais. Era uma pauleira.

O bom é que convivi com alguns dos argentinos que recém haviam conquistado a Copa do Mundo, como o técnico César Menotti, um cavalheiro, sempre atencioso, e craques como Alonso, do River Plate. Contra o Inter,  ele fez um dos gols mais bonitos que já vi:  envolveu a defesa com balõezinhos, dribles curtos e um chute seco.

Quando retornei, uns 15 dias depois, estava convencido de que nada mais iria me abalar, estava pronto para qualquer desafio como jornalista.

Um ano depois, fui transferido para o setor do Grêmio. Até ali, eu havia trabalhado com o Alberto Blum, que era editor do Inter, um grande profissional, ético e compenetrado. O editor de Grêmio era Nilson Souza, dono de um texto impecável, sensível, conciso, e que hoje brilha na Zero Hora. Com o Nílson aprendi a ter uma outra forma de olhar os fatos, de buscar a notícia, de redigir. Fizemos boas reportagens e demos alguns furos na concorrência, leia-se ZH. Nesse período fiz setor com o saudoso Paulo Acosta, que tinha sempre uma piada na ponta da língua, e muita gente boa que continua por aí, como o Marco Antonio Schuster. 

Havia uma relação de amizade muito forte entre os setoristas naquela época, e não é diferente hoje. Claro, cada um lutando para furar o outro. Em 1981, durante o Campeonato Brasileiro, os setoristas azuis, digamos assim, decidiram se unir para convencer o técnico Ênio Andrade a escalar alguns juniores que não conseguiam assumir a titularidade. Entre eles os laterais Paulo Roberto e Casemiro (reservas de Uchoa e Dirceu ‘Jarrão’), o zagueiro Newmar, e o ponta Odair. Sem falar no Portaluppi, que dava show nos juniores. 

Então, quando eles se destacavam nos coletivos, o que acontecia seguidamente, nós dizíamos (por TV, rádio e jornal) que eles mereciam mais oportunidades. Quer dizer, ninguém mentia ou exagerava, eram os fatos. A torcida passou a cobrar a presença da gurizada na equipe. Estou convencido de que temos uma minúscula parcela na conquista do título brasileiro daquele ano.

Além desse ‘jornalismo participativo’, eu era obcecado por dar notícia em primeira mão, o que foi reforçado na nova fase do Correio do Povo. O editor, Hiltor Mombach, pensava da mesma forma. A gente dizia que o CP – ao menos na editoria de esportes – no novo formato, com 16, 20 páginas no início, seria um ‘mosquitinho’ para fustigar a ZH. Nosso maior trunfo era a contracapa inteira. E tínhamos também uma postura crítica, dura às vezes. Ríamos imaginando um dirigente da dupla se esgasgando no café da manhã ao ler uma manchete corrosiva do pequeno grande CP. 

 

 

Éramos incansáveis, e insaciáveis, na briga pelo furo. Particularmente, posso assegurar que bati muito mais do que apanhei. Confesso que algumas vezes apelei. Por exemplo, em 1987, a ZH anunciou o Grêmio estava trazendo um determinado zagueiro uruguaio. Chequei e era verdade. Estava levando um furo da concorrência Descobri que era um zagueiro ruim. Pesquisei uma alternativa melhor. Encontrei o Astengo, do Colo-Colo, e que depois defendeu a seleção chilena.

Lancei o nome do Astengo, com elogios de jornalistas chilenos, frisando que ele poderia ser negociado facilmente. Era dono do passe. Destaquei seu apelido: leão, pela bravura e pela vasta cabeleira. Depois de três dias de campanha, Astengo foi contratado. O ‘Leão dos Andes’ não foi grande coisa aqui, mas acho que com aquele uruguaio seria pior. Num lance só neutralizei o furo e dei a notícia exclusiva.

Em 1993, em janeiro, descobri que não seria difícil trazer Dener, da Portuguesa, para o futebol gaúcho. Setorista do Grêmio – foi um período em que fiz setor por telepatia, conforme costumava brincar, praticamente sem ir ao Olímpico -, telefonei para o então presidente Fábio Koff. Ele se interessou. O CP deu a notícia do interesse com exclusividade. Koff venceu a disputa com outros clubes e conseguiu trazer Dener, um dos melhores jogadores que vi atuar, e que morreu um ano depois de forma trágica. 

Então, alguns dos furos que dei foram dessa forma: sugerindo nomes, participando. Foi assim no caso da interdição do Olímpico, que o Correio do Povo noticiou com exclusividade no final de julho de 1990. Meses antes, eu havia conseguido provas de que alguns setores do Olímpico poderiam desabar. Apurei que em fevereiro de 1989 a Brigada Militar havia comunicado ao Grêmio e aos órgãos competentes da Prefeitura sobre esse risco. A informação saiu na imprensa em pequenas notas, mas ninguém deu muita bola, porque um “pouco de balanço é mesmo normal”, conforme cansei de ouvir. 

Outros episódios de oscilação exagerada das arquibancadas, em especial junto ao local destinado ao placar, foram se sucedendo. A direção do CP ficou receosa de publicar o farto material que recolhi. Foi aí que acionei a Federação Gaúcha de Futebol. O Olímpico precisava de uma reforma urgente.

O caso só foi levado a sério mesmo quando o estádio oscilou mais forte no Gre-Nal de 29 de julho. Na noite seguinte, às 22h, eu estava na redação quando recebi uma ligação de um dirigente da FGF me convidando a participar de uma reunião que estava em andamento na entidade. É lógico que larguei tudo e saí, alertando o Hiltor para segurar a contracapa.

Havia umas 15 pessoas na sala do presidente Rubens Hofmeister. Ele perguntou se toda a documentação que eu havia encaminhado tinha mesmo veracidade. Eu confirmei, claro. Diante do que relatei, Hofmeister, com aquele seu jeitão, declarou que iria interditar o Olímpico, e seria naquele momento. Fiquei por ali e até dei alguns pitacos no texto, concluído perto da meia-noite.

Enviei a nota da interdição por fax para o Hiltor (sem internet era tudo mais difícil, mas não impedia que se fizesse bom jornalismo). Ele perguntou se eu queria um carro. Eu preferi voltar para a redação caminhando pela Sete de Setembro, saboreando aquela vitória, não pelo furo, mas porque estava certo de que havia prestado um importante serviço à sociedade. O Olímpico foi reformado e ninguém morreu, que é o que eu mais temia. Jornalismo também é isso. 

Depois desse episódio, passei a fazer matérias mais trabalhadas, com um viés sociológico, com as quais conquistei cinco prêmios ARI de reportagem esportiva, todos pelo CP, de onde pedi demissão no dia 1º de abril de 2010.

 

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  • COPIÃO DE TUDO

    …..

    Prezado amigo Ilgo !!!!!

    Em apenas 140 ou 145 linhas tu sintetizou o resumo de tua carreira desde o ano de 1976 que por quase 35 anos tu perseguiu a notícia e informação.

    Muito legal tudo isso, pois chama a atenção de detalhes que a profissão exige numa época sem tecnologia apurada, prática e rápida igual temos hoje.

    Relembrar o Telex foi interessante e imagino o tamanho daquela fita gravada com todas as informações que precisavas enviar, ou ainda quando não dava tempo de gravar e tinha que ser ”direto & ao vivo” (rsrs).

    Sobre o jogador Mica tu realmente fosse muito corajoso, pois o cara não era lá essas coisas mesmo, porém, lembro da ascensão do Paulo Roberto, Valdo, Renato, Casemiro, Baideck, Paulo Cesar (LE), China.

    Também lembro que Renato estraçalhou o lateral Junior do Flamengo na final do brasileiro de 1982 no Olímpico quando o Tarciso sentiu uma fisgada na coxa no aquecimento e o Portaluppi ali nasceu para o estrelato.

    Lembro da mentira que foi Astengo em 1987, do surgimento do Assis irmão de Ronaldinho em 1988 e 1989 junto com Cuca que veio do Juventude e formou um meio campo de respeito com Cristóvão e Valdo.

    Também lembro da importância do meia Denner que foi decisivo na recuperação do Grêmio de 1993 quando nós voltamos da segundona e à partir de então, após a saída do Treinador carioca Sérgio Cosme, o Felipão montou junto com Cacalo e Fábio Koff aquele esquadrão que destruiu o timaço do Palmeiras Parmalat em 5 das 6 vezes que os encontramos nas 4ª e nas semi-finais de Copas do Brasil, Brasileirões e Libertadores.

    Sobre os balanços do estádio Olimpico, sempre achei que aquilo era normal devido a constante euforia da torcida tricolor ao longo dos tempos porque nunca parava quieta nem mesmo nas derrotas e sempre com casa cheia.

    Parabéns, Ilgo, quem tem memória tem história e teu percurso jornalistico foi marcante sim, pois todos nós temos uma caminhada para relembrar na vida e nada como o tempo para nos fazer lembrar de tudo, com saudades. Abraço.

    …..

    • Ilgo Wink

      Caro Copião, muito obrigado pelas palavras generosas. Tenho mais coisas pra contar, mas realmente escrevi uma síntese da minha trajetória no jornalismo esportivo impresso (atuei também em outras áreas em TV e rádio), sempre com ética e seriedade, de vez em quando dando uma mãozinha para o Grêmio, rsrsrs
      Pena que pouca gente leu.
      abração, e não liga para o Pedro ‘Raivoso’ de Lara, rsrsrs
      Esse é incurável em seu ódio ao Renato. Freud explica

      • eduardo amador

        Ilgo, acredito que muitas pessoas tenham lido, apenas não comentaram. Olhando hoje a gente vê uns novatos metidos a esperto no rádio. Eu isto, porque eu aquilo, dá nojo. Por vezes troco de frequência e vou escutar música. Depois tem os mais velhos que por arrogância acham que sabem tudo, sinto saudade do Sala de Redação das antigas, bah, era só monstro, agora virou arremedo. Tem de tudo: piadista, cantor, metido a cantor e narrador. Parabéns pela coerência.

        • Ilgo Wink

          Valeu, Eduardo, abs

      • COPIÃO DE TUDO

        Valeu, Ilgo, bela história e trajetória. Admiro muito os bastidores da mídia honesta e leal aos princípios e mesmo Gremista, percebi que tu conduziu com muita competência os assuntos do colorado, isso é ser profissional.

        Quanto ao Pedro ”Raivoso” de Lara, desconfio ser um BBolorado enrustido pelos conteúdos que escreve falando de futebol sempre crítico a tudo que é do Grêmio, e deve ser um guri adolescente que provoca todos os botequeiros com sua visão tosca e fraca do assunto, e,PASME, ele acha que eu quero uma vaga no CD do Grêmio, coitado. Pode isso ?????

        Mas não admito ofensas porque nunca fiz isso com ele, porém, ele sempre terá respostas para cada uma, isso eu garanto.

        Abraço e conte sempre comigo por aqui, pois leio ”todos” os comentários que tu faz no Boteco, pois gosto muito de tua visão e pensamentos.

        • Ilgo Wink

          Pedro de Lara não pode ser coisa de adolescente, é coisa de gente das antigas como nós.
          Vale o mesmo pra quem chama o Odorico de Jerry Lewis, a gurizada não sabe quem é. é coisa de velho e mal-intencionado