O velho Ênio e as prioridades

O técnico Ênio Andrade era bom de prosa. Terminado o trabalho, ele atendia os setoristas com paciência, girando o cordão com um apito que costumava usar nos treinos técnicos e táticos.

Ficávamos ali, à beira do gramado, enquanto o sol se escondia por trás da estrutura social do velho Olímpico.

‘Seu’ Ênio era um treinador discreto, simples, que não buscava glamourizar a profissão como fazem muitos, em especial os que nunca ganham nada. Claro, há exceções.

Pois o velho Ênio costumava dizer sobre os jogadores, em especial goleiros e centroavantes: “Quem tem três tem dois, quem tem dois tem um, quem tem apenas um, não tem nada”.

Era mais ou menos assim que ele falava, referindo-se a ter sempre boas opções para cada posição para não correr o risco de na hora decisiva ficar pendurado no pincel.

Lembrei-me dessa frase ao avaliar a situação do Grêmio. Até uns dias atrás o Grêmio tinha três competições. Ficou com duas.

Perdeu uma que era considerada prioritária naquele momento, em comparação com o Brasileiro, a Copa do Brasil, teoricamente mais fácil para alcançar um título.

Restaram duas competições. A que foi desprezada em alguns jogos – o que está custando caro hoje -, e a prioridade das prioridades: a Libertadores.

Quem tem dois, tem um. Quem tem um, está mais próximo de ficar sem nada.

Espero que o exemplo da Copa do Brasil sirva para guiar a direção gremista por um outro caminho, o caminho de faixa dupla, seguindo assim, com o Brasileirão e a Libertadores correndo paralelamente até chegar a um ponto em que talvez isso não seja mais possível.

Mas até lá, que o Grêmio enfrente o Vasco neste sábado com o que tiver de melhor à disposição, segundo avaliação de seus profissionais.

Lembrando sempre que dependendo dos resultados desta rodada o Grêmio poderá terminar com apenas uma competição que leve ao título.

E aí, como dizia o velho Ênio, quem tem um…

 

A dança dos microfones no rádio gaúcho

Desde a saída de Luís Carlos Reche da Rádio Guaíba, onde vi o ‘Salsicha’ engatinhando como repórter setorista do Inter, que o mercado do rádio esportivo vive um período de mudanças.

Desde 2014 que a emissora tem um novo chefe no esporte: Nando Gross, que andava insatisfeito na Gaúcha – teria quebrado os pratos com o chefão Pedro Ernesto, também conhecido como Pedro Legado, segundo leio por aí nas redes sociais, em especial no blog cornetadorw.

Pois o Nando, dentro do seu direito e até dever, tratou de formar uma nova equipe esportiva. Assim, aos poucos velhos nomes foram ‘desligados’. Por exemplo, Flávio Dal Pizzol e Rogério Bölke.

O último (ou mais recente até o momento) a ser afastado foi o narrador Marco Antônio Pereira, um nome capaz de levar consigo um grande número de ouvintes. Realmente, difícil de entender.

Por outro lado, dias atrás foi acertada a volta de José Aldo (que iniciou com Marcão na Guaíba no século passado).

O time de Nando foi reforçado também por alguns jovens e, especialmente, por Carlos Guimarães  -este há mais tempo -, um analista de respeito e credibilidade. Coisa rara nesses tempos em que alguns jornalistas/radialistas não conseguem disfarçar suas preferências clubísticas, comprometendo o seu trabalho e atropelando a ética.

Mas aí já estamos falando de um mercado que entrou em ebulição mesmo em fevereiro, a partir, de novo, do Reche, que foi desligado (antigamente a gente dizia demitido) da Rádio Band. Foi uma surpresa, porque o Reche além de incrementar a programação ainda trazia anunciantes.

A dança das cadeiras, ou dos microfones, entrou em ritmo mais acelerado. Desde então muita gente trocou de estúdio. Pedro Ernesto apostou em nomes novos para narração de jogos (Marco Antônio saiu ou foi ‘saído’), de modo que hoje não sei quem é o narrador número 2 da Gaúcha.

Outro grande fato no meio foi a demissão de Wianey Carlet, traído por um microfone que estava aberto quando deveria estar fechado. WC falou demais e o que não convinha para o momento. Muitos ouvintes pediram a cabeça do comentarista.

Nesta semana, WC estreou na Band (com ele o Alex Bagé, que conquistou uma legião de fãs na Grenal), que está montando uma equipe forte para competir e até brigar pela liderança. Tem até um programa novo, que vai das 12h30 até as 14h. Briga direta com o Sala de Redação, que não é mais aquele, está renovado, mas parece ter perdido sua alma, sua essência.

Não é por nada que o ‘Santaninha’, personagem do Duda Garbi, repete seguidamente o mantra: “Saudade do antigo Sala”. Os mais veteranos, imagino, devem concordar.

O fato é que a Rádio Grenal, que cresce de audiência e de qualidade com a incorporação do Dal Pizzol, Rogério e, por último, Marco Antônio Pereira, também entrou na briga contra o Sala.

Já a Guaíba se abstém nessa disputa. Segue com um programa que dá espaço justamente para aqueles que a população em geral mais detesta: os políticos. Sem contar o viés ‘esquerdista’ do programa.

Devo ter esquecido alguns nomes. É que é muita mudança nessa dança dos microfones. Ah, hoje a Band anunciou a demissão do João Batista Filho, um repórter agitador da nova geração.

Para encerrar, dos grandes nomes só quem ainda está sem microfone no rádio esportivo gaúcho é o Reche. Não duvido que ele e seu velho rival, Mortadela, passem a dividir o microfone.

É difícil, mas nada é impossível nesta agitada dança dos microfones.

 

Força máxima no Brasileiro e na Libertadores

A menos de quatro meses do final da temporada, o Grêmio tem como saldo zero título, e isso no ano em que encantou o país e deixou cada gremista orgulhoso de seu time pela qualidade superior do seu futebol.

Por enquanto, é esse futebol envolvente e encantador que mantém acesa a esperança de ainda comemorar um campeonato.

O fato é que os três títulos mais fáceis de serem conquistados o Grêmio deixou escapar, e não importa aqui as razões que levaram o clube a perder outro Noveletão, a Primeira Liga e, principalmente, a Copa do Brasil.

Se as outras duas competições o Grêmio negligenciou, a CB era, de acordo com o planejamento, a taça a ser conquistada para poder focar apenas na Libertadores, largando de vez o Brasileirão.

A gente sabe que torneio mata-mata é normalmente o caminho mais rápido para um título. Há quem confunda rápido com fácil. O Grêmio deixou escapar a CB, e agora se vê numa situação complicada. São duas competições pela frente, justamente as mais difíceis.

O Grêmio, ou seja, sua direção e sua comissão técnica, já faz tempo optaram pela CB em detrimento do Brasileirão. Foi uma decisão radical que contrariou a maioria de sua torcida.

Eu concordei com a opção pela CB, mas pensava que seria possível ficar no meio termo: jogar com um time misto, poupando basicamente aqueles jogadores que realmente estivessem necessitando de uma pausa. Contra o Sport, em Recife, tivesse no banco jogadores do time principal talvez o Grêmio tivesse impedido a reação do adversário, que virou o jogo.

A virtude está no meio-tempo, já dizia o ‘centroavante grego’ Aristóteles, que fazia dupla de ataque com Sócrates, este ídolo no Corinthians. Não sei, mas acho que estou misturando as coisas.

Diante disso, contra o Vasco, no Rio, penso que o Grêmio deva jogar com o que tiver de melhor física e tecnicamente.

Quem perdeu três competições no ano não pode mais abrir mão de nada. Priorizar a Libertadores, tudo bem, mas manter um time forte e competitivo no Brasileirão é imperativo.

É difícil alcançar o Corinthians, sim, mas qualquer time por mais experiente que seja sente o bafo na nuca e começa a tremer. Já aconteceu isso com o próprio Grêmio tempos atrás.

Entrar com um time capaz de vencer o Vasco é obrigação. Ainda mais depois de uma semana só de treinamentos.

De minha parte, acredito no bem senso dos homens que tão bem estão comandando o clube.

Grêmio atropela Sport e detona teses

Subestimei a capacidade do melhor treinador do futebol brasileiro na temporada. No meu comentário anterior manifestei preocupação com as ausências que ameaçavam descaracterizar o futebol vistoso e vitorioso que o time apresentou muitas vezes ao longo do ano, em especial na reta decisiva da Copa do Brasil 2016.

Alguns parceiros do blog se mostraram mais confiantes. Certamente é um pessoal que não viveu os anos de chumbo tricolor, a década de 70. Trago marcas na alma desse tempo, e isso me torna mais assustado, prevendo o pior.

Independente disso, minha tese é que Renato teria de alterar o modelo, o formato vencedor diante das perdas no meio de campo e da saída de Pedro Rocha.

O fato é que minha tese foi atropelada pelos fatos. Eu, ao contrário de muitos, não brigo com os fatos nem com as notícias. O jogo deste sábado na Arena mostrou que Renato vai mesmo manter o padrão implantado.

Então, fui à Arena -não vou muito seguido- para ver de perto se minha tese estava correta e o que Renato faria para manter o time competitivo sem titulares importantes como Maicon, PR e Geromel, e no caso também o desfalque de Luan, que está na seleção passeando enquanto o time precisa dele. Quer dizer, nesse jogo contra o Sport não precisou. Nem um pouco. E isso me deixa muito impressionado.

O Grêmio começou com Léo Moura completando o meio de campo tradicional e com Fernandinho de articulador pelo meio e pelos flancos. Para muitos um esquema defensivo. Não importa o número de volantes, e sim como eles se projetam e com que qualidade.

O Sport Recife tem um bom time, bons jogadores. Tinha condições de fazer um enfrentamento duro com o Grêmio. Mas o que se viu foi um Grêmio sufocante, marcando no campo do adversário, tomando a bola e jogado de forma objetiva, rápida. Neste aspecto específico, Luan por vezes retarda o jogo e facilita a recomposição do adversário.

OS GOLS

Foi um festival de gols bonitos e belas jogadas. O primeiro gol saiu de uma troca de olhares de Èverton com Bruno Cortez. O atacante abriu espaço para o lateral fazer a diagonal e lançar para Fernandinho, que foi calçado quase na risca da área. Edilson soltou a bomba e fez 1 a 0.

Logo depois, Éverton recebeu um toque precioso de Arthur e chutou para Magrão fazer grande defesa.

O segundo gol, aos 34, Edilson fez uma jogada rara no futebol, duas meia-luas seguidas, e o recuo para Éverton ampliar com chance para o goleiro.

No terceiro gol, aos 22 do segundo tempo, Ramiro foi seguro dentro da área, sem bola. Pênalti que Fernandinho aproveitou para fazer 3 a 0.

Três minutos depois Ramiro deu um passe de cabeça e Fernandinho, também de cabeça, perto da marca do pênalti, fez 4 a 0, falha do goleiro que foi tarde na bola.

O quinto gol saiu quando o time já tinha dois guris da base, Patrick e Dionathã, e Beto da Silva.

Em sua primeira bola, Dionathã recebeu de Fernandinho, ajeitou e mirou o canto direito, gol de jogador frio, experiente. Minutos antes, Patrick havia feito bela jogada que por detalhe não resultou em gol.

 

Quer dizer, Renato ressuscita veteranos e dá oportunidades reais aos jovens, mas sem açodamento.

Bem, é o Grêmio dando um bafo na nuca do Corinthians.

PEDRO ROCHA

Pedro Rocha está saindo pela porta frente e com a chave para voltar a hora que quiser, porque o Grêmio é a casa dele. PR sentiu isso no intervalo quando entrou em campo ao lado dos pais. Foi muito aplaudido. Cena emocionante.

Espero que a atitude de PR e sua família sirvam de exemplo e de inspiração para Luan.

O ocaso de um modelo que encantou e venceu

Esqueçam o Grêmio-show. Esqueçam aquele futebol que encantou e venceu, quebrando jejum de 15 anos sem grandes títulos.

Aquele Grêmio não existe mais.

O que existe é um Grêmio que o técnico Renato terá de esculpir às pressas, sem muita margem de erro. Renato terá de armar um time mais pragmático. Se ele tentar manter o mesmo modelo terá problemas.

Portanto, não especulem quem fará a função de Pedro Rocha. Talvez ela, a função, seja extinta, com Renato buscando nova formatação no meio de campo que tenha forte capacidade de marcação e ao mesmo tempo objetividade e criatividade ofensiva.

O Grêmio terá de mudar, e quem duvida que até seja para melhor? Renato já mostrou que não é bobo, que conhece futebol – sem precisar recorrer a livros como Telê Santana, Ênio Andrade, Muricy e tantos outros. Renato já mostrou que gosta de desafios. E o atual parece ser o mais difícil.

Por que estou decretando o ocaso do modelo iniciado por Roger Machado e aperfeiçoado por Renato?

Simples, a notícia de que Maicon, o melhor jogador do meio de campo gremista desde a conquista da Copa do Brasil, está fora, não joga mais este ano, é para mim trágica. Maicon é uma referência técnica e tática, uma liderança.

Michel é muito bom jogador, mas não tem personalidade para assumir o jogo. Arthur é ainda melhor que Michel, mas é muito guri e não tem a liderança de Maicon.

O Grêmio campeão da Copa do Brasil tinha Wallace, Maicon, Douglas e Luan como centro do time. Só restou Luan.

Então, não vejo como repetir o modelo vitorioso que tanto orgulhou a nação tricolor.

Todos nós vimos que no time B/C não há ninguém que possa acrescentar qualidade realmente significativa ao time que restou após a saída do grande Pedro Rocha, grande no futebol e no caráter; e em função das lesões que se sucedem na Arena.

Resta torcer que a nuvem escura que paira sobre a Arena se dissipe, e que seja já a partir deste sábado.

Estarei lá.

 

Saída pela porta da frente

É difícil avaliar a qualidade de um jogador jovem a partir de um jogo como o desta noite em que o Grêmio, com um time misto frio, foi eliminado pelo misto quente do Cruzeiro por 2 a 0, gols nos minutos finais.

Quem quiser que sentencie se este ou aquele jogador deve largar a bola e estudar, ou que está ali um projeto de craque.

É muito arriscado opinar com amostragem tão pequena.

Pedro Rocha, lançado por Felipão em 2015, certamente não agradou a todos quando começou a aparecer entre os titulares, que normalmente oferecem melhores condições para que um jovem desabroche.

Lembro-me que PR jogava mais pelo lado direito na época, e até pelo miolo do ataque. Não sei se chegou a jogar pelo lado esquerdo. Acredito que não.

Não esqueço dos murmúrios e até de vaias ao iniciante, que também em alguns momentos arrancou aplausos e convenceu alguns de que ali estava uma pedra bruta a ser lapidada.

O trabalho começou com Roger Machado, que começou a insistir com PR pela esquerda, marcando e atacando. Foi um período em que o guri, ainda inseguro e sem conhecer suas reais potencialidades, dividia opiniões. Ah, e os gols perdidos, então.

Com a chegada de Renato Portaluppi, que de atacante entende alguma coisa, Pedro Rocha começou a ver seus caminhos rumo ao estrelato se abrirem, se iluminarem.

PR foi jogador decisivo, fundamental na conquista da Copa do Brasil de 2016. Sem ele o título não teria acontecido. Estou convencido disso.

Pois bem, além de contribuir para romper o jejum tricolor, PR agora ajuda a salvar as finanças do clube num momento crítico.

Foi negociado ao Spartak por 12 milhões de euros, uns 45 milhões de reais. Dinheiro para ninguém botar defeito, dinheiro graúdo até para muitos dos ladrões da lava-jato.

Os russos acreditavam que poderiam tirar nosso menino de ouro por 8 milhões de euros. Mas a direção do Grêmio – mesmo pressionada pelo déficit de 60 milhões – conseguiu elevar o valor para 12 milhões. Ou tudo ou nada. Deu certo. Importante registrar que todo o dinheiro é do Grêmio, coisa rara hoje em dia.

Depois da recusa de Luan, que se encaminha para imitar o sujeito aquele, os russos foram com tudo em PR. O Grêmio tirou proveito da situação durante a transação.

Pedro Rocha, quem diria?, virou uma estrela do futebol. Vai brilhar no Spartak e logo estará vestindo a camisa de um clube da primeira linha da Europa. Porque joga muito, tem potencial para evoluir e, acima de tudo, porque tem um bom caráter.

A lamentar apenas que o time não terá o guri no segundo semestre.

Pedro Rocha é a prova de que se pode enriquecer num clube e sair pela porta da frente, podendo voltar como se nunca tivesse saído.

 

PRIMEIRA LIGA

Sobre o jogo em Minas, sem dúvida o goleiro Léo Jardim foi o maior destaque. É um goleiro em condições de disputar posição com Marcelo Grohe.

Gostei do Conrado, do Jean Pyerre (este com um potencial enorme) e do Patrick. A dupla de área até que foi bem. O time do Cruzeiro era superior e mais experiente.

Já o Grêmio atingiu seu objetivo: menos uma competição pra atrapalhar.

No tempo em que não havia redes sociais nem celular

É curioso como certas coisas mexem com a gente. Por exemplo, lendo o ótimo blog do Prévidi – o que faço diariamente – soube da morte do Eloidy Rodrigues. O mais interessante é que convivi muito pouco com ele, e, na verdade, tive de puxar pela memória para começar a juntar, mentalmente, fragmentos do meu passado no jornalismo.

Mesmo assim, a informação da morte do Eloidy – ‘seu’ Eloidy, como o chamava nos meus tenros anos de aspirante a jornalista – mexeu comigo, mais até do que outros óbitos de ex-colegas.

Recuo no tempo. Verão de 1976. Redação do extinto Diário de Notícias, um jornal que chegou a concorrer com o Correio do Povo pau a pau em determinado momento.

Naquele ano, quando entrei na redação, de cara percebi que ali estava um jornal decadente – fechou quatro anos depois.

Vinha do CIEE e buscava uma vaga de estagiário. Foi meu primeiro contato com o Eloidy (chefe da redação), que imediatamente me apresentou ao Jorge Mendes, editor de esportes do Diário.

Jorge, ou Jorginho, como era mais conhecido, eu me orgulho de ter homenageado, em vida, com uma reportagem de duas páginas no jornal Já, logo que deixei o Correio do Povo, em 2010. Jorginho foi um cara que viu Lara jogar, viu praticamente todos os Grenais desde 1930 e poucos. Vale a pena ler essa matéria.

Wianey e Pato

Bem, voltando a 1976. O Jorginho me recebeu muito bem. Eu era uma figura comum naqueles tempos: cabeludo, barba rala e falha, magro, ‘pele e osso simplesmente, quase sem recheio’. Um bicho-grilo.

-Tu vais fazer o setor do Inter.

-Não pode ser o Grêmio?

-Não, o Grêmio é com o Paulo Moure.

Eu já era chato naquele tempo. Insisti:

-E ele não quer fazer o Inter?

-Ele quer, mas é que ele é muito amigo do Falcão, aí fica chato.

-E eu vou substituir a quem?

-O Wianey Carlet, que acertou com a rádio Gaúcha.

Eu não sabia quem era esse tal Wianey, que acabou se destacando na imprensa esportiva. O Pato eu conhecia pelos jornais, por sua vinculação de amizade com o Falcão. Mais nada.

Minelli & cia

No dia seguinte, o Jorginho foi comigo ao Beira-Rio. Fui apresentado ao Minelli, ao Gilberto Tim, ao Figueroa, ao Falcão e mais um ou outro jogador e dirigentes.

Quero dizer que me senti um cordeiro no covil dos meus algozes.

Fiquei dois meses como setorista do Inter. Saí de lá porque me senti desprestigiado pelo jornal.

Um dia o carro do jornal não foi me buscar. Eram 19 horas, e nada. Não tinha celular naquela época. Voltei de ônibus. Dois ônibus. Puto da cara.

Na segunda vez que esqueceram de mim, final de tarde, e eu ali no sol. Mais puto da cara.

Nisso, aparece o Falcão com um flamante Chevette.

Ele parou o carro junto ao portão, abriu o vidro com manivela.

-Vais ao Diário agora?, ele perguntou. Eu respondi que sim. Ele me ofereceu carona, ele ia para Canoas, e a sede do jornal era no caminho (Avenida São Pedro quase esquina com Farrapos).

Conversamos algumas amenidades. Lá pelas tantas ele pediu-me um favor, que eu pedisse para o Pato descer, que ele precisava falar com ele. Não sei como a gente vivia sem celular, sinceramente…

Esse gesto do Falcão me sensibilizou. Dar carona a um estagiário.

Entrei na redação, barulho intenso dos teclados das máquinas de escrever, gente fumando. Enfim, uma redação de jornal.

Falei com o Jorge Mendes.

-É a última vez que eu volto sem o carro do jornal, Jorge, é sacanagem. Se acontecer de novo eu vou direto pra casa.

Ele pediu-me que falasse com ele, o Eloidy.

-Fica tranquilo, guri, não vamos mais te deixar empenhado -, prometeu.

Uma semana depois, outro esquecimento. Nem o Eloidy, nem o Jorginho tinham poder pra garantir transporte. Mas isso é irrelevante.

Nunca mais voltei ao jornal. Nunca mais vi o Eloidy, um cara que me acolheu com muito carinho. Que descanse em paz.

No dia seguinte, fui ao CIEE. Consegui uma vaga na Folha da Manhã, até hoje considerado o melhor jornal que já tivemos no Estado.

Mas essa é outra história.

 

Redes Sociais

O meu amigo RW aparentemente jogou a toalha. Diz ele que não irá mais questionar ações do Grêmio para não ser atacado pelas redes sociais, que hoje são uma terra de ninguém. Pior que o Congresso de tanta baixaria.

Mas há coisas positivas, tem muita gente boa escrevendo, transmitindo ideias e conceitos sobre imprensa, futebol e o Grêmio. São essas pessoas que me estimulam. Muitas escrevem melhor do que eu, o que não significa grande coisa, mas é alguma coisa.

Os ataques e contra-ataques fazem parte. Eu continuo aqui na minha trincheira e não me sinto incomodado com críticas e até com ofensas sem sentido, descabidas.

Então, não vou desistir. Não importa o que façam. Mesmo que fique aqui sozinho, abandonado por essa ou aquela razão, vou em frente.

Acima de tudo porque escrevo pra mim mesmo. Me faz bem.

Não vou me importar de ser meu único leitor.

 

Puxando a brasa para o meu assado

Já que nenhum dos meus parceiros – mui amigos – aqui do blog lembrou de fazer referência ao artigo que escrevi na véspera do jogo contra o Cruzeiro, eu corrijo essa falha de absoluta desinformação. Quando eu erro – algo mais raro que eclipse total do sol – sempre tem um corneteiro, esfregando as mãos de prazer sádico, pra lembrar. Quando eu acerto, silêncio.

Então, aqui me recuperando, ainda sem poder ficar muito tempo diante da tela do computador, transcrevo parte do que escrevi antes do furacão categoria 4 que se abateu sobre o nosso time, prevendo o que aconteceria com Luan sob a conivência da arbitragem, o que, a meu ver, contribuiu muito para a derrota.

Segue o que interessa:

“Cada vez mais visado pelas chuteiras do mal sob os olhares negligentes dos árbitros em geral. Luan é o jogador do Grêmio a ser marcado. Todos os treinadores sabem disso. Mano Menezes sabe que o jogo do Grêmio passa pelos pés de Luan, ainda mais se Maicon não jogar. É com Maicon que Luan melhor dialoga, apesar do alto nível do futebol jogado por Arthur e Michel.

Só espero que Mano não ordene que seus jogadores ‘cheguem junto’, expressão aplicada não raro como neologismo para ‘mata a jogada custe o que custar’.”

MILLER

Escrevi também sobre o Miller Bolanos, que parece ter vindo aqui apenas para levar a cotovelada assassina e faturar algumas centenas de milhares de dólares.

Uma passagem obscura e plena de boatos desabonadores.

Uma pena. O Grêmio investiu forte para ter esse jogador para a Libertadores do ano passado. Não deu por causa da agressão covarde que o vitimou. Agora, já sem nenhum problema físico, ele poderia ser útil.

Aí, ele pede para sair.

E faz de tudo para contribuir para sua saída, inclusive com um comportamento que pode induzir o clube a reduzir o valor do seu ‘passe’.

Por mim, já vai tarde. Mas que é uma pena, é uma pena.

 

Grêmio cai nos pênaltis

Ser eliminado de uma Copa do Brasil nos pênaltis e para um time inferior é duro, mas faz parte.

O Grêmio teve o jogo na mão. Lucas Barrios, o fazedor de gols, teve sua noite ‘não’. A melhor chance do jogo com bola trabalhada foi desperdiçada pelo goleador paraguaio logo no começo, após uma metida de bola genial de Luan.

Um gol naquele momento, Mineirão lotado, resultaria numa pressão muito forte sobre os jogadores de Mano Menezes. O Cruzeiro teria de fazer três gols e não levar mais um para classificar-se.

Mas Lucas Barrios perdeu o gol. A melhor chance de gol da partida com bola rolando.

Fora isso, tem o juiz que, conforme escrevi aqui neste espaço, fez o que eu temia, foi negligente com o abuso de faltas cometidas pelos mineiros, a maioria sobre Luan. Em quatro minutos de partida Luan sofreu três faltas, num rodízio de faltosos.

Tivesse ele agido com o rigor que teve ao aplicar um cartão amarelo em Lucas Barrios, a história seria muito diferente. O Cruzeiro, fatalmente, teria jogador expulso.

Tirando a choradeira, o Grêmio foi superior no primeiro tempo, e inferior no segundo. Com Luan agora bem marcado, o time ficou sem saída rápida para o ataque. Houve uma escapada com Éverton e Pedro Rocha. Os dois não assumiram a responsabilidade de chutar e a chance se esvaiu.

Já o Cruzeiro, diante da boa marcação de Michel e Arthur e do firme posicionamento dos quatro defensores -Bressan não comprometeu -, apelou para o jogo aéreo. Tanto fez que acabou marcando 1 a 0, um gol de cabeça de Hudson, que pulou livre.

Lucas Barrios, que aparentemente vem jogando no sacrifício, cedeu lugar para Éverton. Mas o guri foi pouco aproveitado. O Cruzeiro não adiantou sua linha de zagueiros, tirando espaços para contra-ataques. O melhor talvez fosse colocar Maicon, adiantando Luan. Mas Maicon é outro que anda um tanto fragilizado.

O Grêmio buscou o empate, lutou para marcar o gol que liquidaria o jogo, mas esbarrou num Cruzeiro determinado, um time que nos minutos finais parecia satisfeito em levar o jogo para as penalidades.

Eu fiquei preocupado. Não queria pênaltis. Acho que nenhum gremista acreditava de verdade numa vitória nos pênaltis. Exemplos recentes de más cobranças são traumáticos. Dois dos que erraram não faz muito, Edilson e Luan, voltaram a errar. Edilson chutou na trave e Luan fez a glória do Fábio. O outro que errou foi Éverton, também na trave.

Apenas Fernandinho e Arthur, este com muita frieza e técnica, marcaram.

Quem poderia sair do Mineirão consagrado é Marcelo Grohe. Ele fez duas defesas. Ou seja, fez a sua parte. Nem o gremista mais pessimista imaginaria que numa cobrança de cinco apenas duas cobranças fossem convertidas.

Por fim, aqueles que queriam um Grêmio mais dedicado ao Brasileirão e não estavam, digamos, nada entusiasmados com a possibilidade do hexa, agora podem comemorar.

Esses, a mídia do centro do país e a CBF, que andaram criticando o Grêmio por ter optado pela CB, opção ocorrida por causa de um calendário estúpido.

Embora um tanto tarde, a partir de agora o Grêmio deve ir fundo no Brasileirão, mas não muito, porque ainda há a Libertadores pra “atrapalhar”.

 

 

Não vamos nos dispersar: foco no Hexa

Esses assuntos periféricos que só servem para atiçar os lobos vermelhos, alimentar as redes sociais e preencher espaço em programações esportivas estão em segundo plano, ao menos para mim.

O foco agora é na decisão contra o Cruzeiro. Não vamos nos dispersar. Se Luan vai ou não imitar o ex-jogador aquele e se Miller Bolaños um dia voltará a vestir a camisa do Grêmio são questões que preocupam, mas, a meu ver, secundárias para um clube que está a uma vitória e dois empates (simplificando) do hexa da Copa do Brasil.

O que realmente importa hoje é que Luan estará em campo. E melhor ainda seria se o equatoriano estivesse à disposição, com ganas de jogar seu belo futebol, algo que parece cada vez mais impossível. Até Renato que conhece a alma dos boleiros jogou a toalha.

Mas ainda temos Luan. Cada vez mais visado pelas chuteiras do mal sob os olhares negligentes dos árbitros em geral. Luan é o jogador do Grêmio a ser marcado. Todos os treinadores sabem disso. Mano Menezes sabe que o jogo do Grêmio passa pelos pés de Luan, ainda mais se Maicon não jogar. É com Maicon que Luan melhor dialoga, apesar do alto nível do futebol jogado por Arthur e Michel.

Só espero que Mano não ordene que seus jogadores ‘cheguem junto’, expressão aplicada não raro como neologismo para ‘mata a jogada custe o que custar’.

O bom é que Luan não se intimida com as entradas fortes e por vezes desleais mesmo. Quanto mais apanha mais retém a bola, mais provoca e atiça a ira dos marcadores, algumas vezes com dribles desconcertantes.

Se Luan estiver inspirado, acredito até mesmo numa vitória sobre o Cruzeiro, embora o empate seja suficiente – e até derrota por um gol, fora o 1 a 0, que leva aos pênaltis. Não, pênaltis, não. Não merecemos.

Sobre o time que começa, li que há dúvida entre Arthur e Maicon. Arthur está em melhor forma e deve sair jogando.

Agora, não afasto a possibilidade de Maicon começar no lugar de Barrios (sentiu lesão no jogo anterior). A ideia não me desagrada. Seria uma forma de rechear o meio de campo, liberando um pouco mais Luan e deixando Pedro Rocha como válvula de escape.

Os dois formatos me agradam. Ainda prefiro a primeira opção, desde que Lucas Barrios esteja em boas condições. Se ele não estiver 100 por cento, melhor, então, é deixá-lo como alternativa.

Por fim, não há como não confiar num time que desde a CB do ano passado tem mostrado maturidade e qualidade para superar qualquer adversário em território nacional, dentro ou fora de casa.