Meu último encontro com o eterno presidente Hélio Dourado

O texto abaixo foi publicado no dia 26 de outubro de 2012. Eu acabara de concluir a cerveja Olímpico. Decidi presentear o homem que sem ajuda de empreiteira, mas movido à paixão e determinação, havia concluído o Olímpico Monumental, mobilizando a maior torcida do Estado, a nação gremista.

Ao reler esse texto me vem à mente cada minuto que estive frente à frente com o maior gremista que conheci, um homem que deu parte de sua vida ao Grêmio, clube que atingiu esse patamar glorioso muito graças a esse gremista lendário.

Bem, segue o texto, minha última homenagem:

“No final da manhã retiro da gráfica os rótulos da minha nova cria: a cerveja em homenagem ao Estádio Olímpico Monumental, a OLÍMPICO.

Às 13h, depois de rotular as primeiras long neck com seu líquido precioso, telefono para um sujeito a quem devo muito, o cara que interrompeu a longa e tenebrosa noite dos títulos sucessivos do Inter na década de 70 ao vencer o Gauchão de 1977, me proporcionando uma alegria que me deixa emocionado até hoje.

O eterno presidente Hélio Dourado atende. Depois de saudações efusivas e “quanto tempo pra cá, quanto tempo pra lá”, combino de ir ao apartamento dele no final da tarde.

– No começo da tarde não dá porque tenho que ir ao banco -, diz Dourado, entre um e outro ‘érre’ engolido, me deixando feliz por saber que está ativo e plenamente lúcido, contrariando uns e outros que não gostam de ouvir vozes que opostas a seus interesses e projetos.

Passam alguns minutos das 17 horas quando o homem que concluiu o Olímpico Monumental na raça e na coragem abre a porta sorridente. Está mais magro, encolheu, como diminuem de tamanho todos os que chegam aos 82 anos.

Para mim, o homem que se mostra emocionado ao rever um antigo setorista tricolor continua um gigante.

– Como é bom encontrar o pessoal daquele tempo -, diz Dourado, enquanto nos acomodamos na sala. Coloco o kit presente com duas Olímpico e uma Mazembier sofre a mesa de centro. Ele percebe, mas não liga. Quer falar do passado, do Grêmio, do Olímpico, da Arena.

Natural de Santa Cruz do Sul, como eu, Dourado contou que é sócio do Grêmio desde 1941, logo que chegou a Porto Alegre. ‘Foi no dia do meu aniversário de 11 anos, dia 21 de março. Quem me levou foi minha mãe, que era muito gremista’, lembrou.

Quando o assunto passa a ser o Grêmio, Hélio Dourado não disfarça sua desolação e seu desgosto.

Diz que não vai a jogos no Olímpico há mais de ano. “Só voltei lá pra votar no Koff, que foi meu diretor de futebol em 1976′, revelou.

Pergunto se ele já foi visitar a Arena. “Outro dia o Odone me convidou, mas eu não aceitei. Não tenho curiosidade”, garantiu.

Quem sabe a gente vai junto, provoquei. “Não, lá eu não piso”, rebateu enfático.

Ao longo da conversa percebi que ele é capaz de ir na festa de inauguração.

A maior mágoa dele, ficou claro pra mim, é que o projeto do arquiteto Plínio Almeida para modernizar e ampliar o Olímpico sequer foi considerado.

Dourado se entusiasmou quando deu detalhes da proposta do homem que projetou o Olímpico. Criticou duramente a localização da Arena e o acordo firmado com a empreiteira. “O estádio será realmente do Grêmio apenas depois de 20 anos. Em que condições estará?”, questiona.

– Mas não há mais o que fazer, presidente. A Arena está aí, é fato consumado -, pondero.

Dourado não se conforma. Mas deixa evidente que sua mágoa seria amenizada se o Olímpico permanecesse em pé. A dor seria menor.

– Porto Alegre não tem um estádio para o futebol amador. O governo do estado, a prefeitura, sei lá, eles poderiam comprar essa área, impedindo a demolição do Olímpico e a construção de espigões no lugar. Mas ninguém se preocupa com isso. O Olímpico é um patrimônio do futebol gaúcho -, reforça, lembrando por momentos o grande líder que conduziu o Grêmio a conquistar seu primeiro título de campeão brasileiro, em 1981, abrindo as porteiras do Rio Grande para o Brasil e o mundo.

Não tenho dúvidas: se fosse mais jovem, Dourado mobilizaria lideranças do clube e a torcida para remodelar o Olímpico em fez de erguer a Arena, preservando o patrimônio do Grêmio.

Depois, falamos de futebol. Ele contou histórias e citou dois jogadores como símbolos de sua trajetória como presidente: De León e Oberdan. “Dois grandes jogadores, dois líderes, profissionais de caráter. Todo o time precisa ter um jogador assim, uma voz forte dentro de campo, só o treinador não resolve”, ensinou o velho mestre, lamentando que o time hoje (em 2012) não possui um jogador com esse perfil.

Dourado ainda tem muito a contribuir. Agora, ele aguarda que daqui a algum tempo o presidente eleito Fábio Koff o visite. “Ele prometeu que viria aqui para falar do Grêmio”, diz, com os olhos brilhando.

Antes de me despedir, entrego as cervejas. Pegou a Olímpico, leu o rótulo em voz alta. Pedi licença pra tirar uma foto. Senti que Dourado ficou feliz com o presente/homenagem.

– Vou colocar na estande como um troféu, mas antes vou beber, claro -, falou, abrindo um sorriso.

Percebi que ele estava emocionado com a homenagem. Nada comparado, porém, com as emoções que senti em 1977, quando ainda não era jornalista, e em 1981, quando Baltazar marcou aquele golaço no Morumbi na conquista do Brasileiro.

Continuo devendo muito ao presidente Dourado.”

 

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  • Lucas Eduardo Pavão

    Perder Dr Helio Dourado e Paulo Santana em poucos dias é muito triste. Confesso que rolou uma lágrima ao ler este texto, duro ver grandes Gremistas fazerem a passagem desta vida. Fico feliz que pelo menos ele pode comemorar a quebra do incomodo jejum dos 15 anos. Vá com Deus Patrono.

  • José da Silva – COPIÃO DE TUDO

    O maior Presidente de nossa história, pois à partir de Hélio Dourado o Grêmio passou a ser respeitado além das fronteiras do RS e do Brasil em todos os tempos.

    O Grêmio se resume a ”antes & depois” da gestão magnífica, firme, determinada e muito ousada do Dr. Hélio Dourado, um grande e verdadeiro Gremista.

    Sentimentos à família. Descanse em paz, obrigado Presidente.

  • Gustavo Medeiros

    Tu e todos nós gremistas, Ilgo, devemos muito ao Hélio Dourado.

    Ele mostrou o que é ser gremistas acima de tudo. Foi o maior presidente. Garanto que se perguntarem ao Koff ou Odone, quem foi o maior presidente, dificilmente deixarão de dizer que foi Hélio Dourado o maior presidente do Grêmio.

    Se o Grêmio é grande hoje, é por causa desse senhor. Simples, humilde, que levou sua paixão, comprometimento e moral acima de tudo a patamares nunca vistos no esporte do RS.

    É um, ou o último dos grandes. Hoje em dia é só filho desse, filho daquele, padrinho de não sei quem, amigo do fulano, grupo do ciclano, contratado pelo beltrano, não tem mais espaço para um guri que se associou aos 11 anos e levou o Grêmio ao mundo.

    Pena é vermos que não existem mais Hélios Dourados. Hoje é só jogo de interesse.

    Seu maior legado, que foi, ser gremista, acima de tudo, muitas vezes, parece esquecido.

  • Fabio Scheffer

    Sem duvida um dos maiores gremistas de todos os tempos.
    Dourado pertence ao panteão gremista que entre dirigentes, treinadores e jogadores é composto por nomes como Koff, Renato, Felipão, Fernando Kroeff, Lara…
    Um nome indiscutível no universo gremista que vai acompanhar tri da América, o tri Brasileiro e o hexa da CdB (ou ao menos um dos três) junto as estrelas.
    RIP Helio Dourado !!!

  • HENRIQUE MARTINS

    Este é dia triste para todos nós GREMISTAS.
    Lembrar de Dourado me remete a 1977, juntamente com André Catimba.
    A construção da parte superior do Olímpico está bem captada na minha memória.
    Mas me lembro ainda mais de 1981.
    Que época.
    Dourado e Santana vão se juntar e nos ajudar lá de cima…….do azul de todos nós.

    • Ilgo Wink

      Vencer naquele tempo era mais difícil. O Inter estava por cima. Foi duro

  • Deny Camargo

    Uma perda imensa. Um visionário. Se serve de consolo ao menos o homem lá de cima o levou antes do Olímpico ser implodido. Teria sido um desgosto muito grande para ele.

    • Ilgo Wink

      bem lembrado

  • Walter Luis Borba

    Para mim nosso maior Presidente.
    Belíssimo post Ilgo, parabéns.

  • Querubini

    Meus agradecimentos ao nosso imortal Presidente Hélio Dourado! Vá com Deus! Ilgo, parabéns pelo texto!

  • Francisco Lanferdini Serafini

    É um belo texto. Parabéns pela a homenagem, essa de agora e a de outrora.

    O Hélio Dourado é o Verdadeiro Futebol em essência.