Homenagem inoportuna

Está no site do Grêmio: Duda e César Pacheco, sorridentes. Entre eles, com um sorriso meio constrangido, o técnico da Seleção Brasileira, Mano Menezes. Com a ajuda de chefe do marketing gremista, ele segura uma camisa tricolor com um enorme 89pintado, significando, vejam que relevante, o número de vitórias de Mano dirigindo o time do Grêmio.

Eu não sei o que é pior: a homenagem em si, sem fundamento, sem necessidade, beirando o absurdo, ou a permissão de colocar a foto no site do clube após novo fracasso no Campeonato Brasileiro. Se tivesse vencido o Santos, a foto passaria batida, mas hoje ela se mostra ridícula.

Cada vez mais essa gestão me lembra outra que se ufanava de ter ônibus moderno e site festejado enquanto o clube afundava cada vez mais.

Nova derrota e o boato Koff

É muito ruim ser repetitivo. Fico com a impressão de estar sendo chato, cansativo, mas tudo o que escrevi lá por abril ou maio está acontecendo.

O Grêmio começou mal o ano. Nas contratações, mais errou do que acertou. Gastou dinheiro demais para trazer jogadores que nunca foram destaque por onde passaram e/ou que estavam numa descendente na carreira. Salários na faixa dos 200 mil reais para jogar uma bolinha de segunda divisão.

A insistência em manter Silas foi outro erro. Demorou demais para trocar. Mais do que um motivador, o Grêmio precisa de um organizador. Não era o momento de Renato. Escrevi isso. Mas não foi só: pedi ao irmão de Renato, o Adão, que é meu amigo, mandasse um recado meu: “Não vem que é fria, é só pra se queimar”.

Renato está se revelando um acomodador. Se esforça para colocar os medalhinhas no time. Maylson no banco deeeeesse time? Pelo amor de Deus!

A derrota por 2 a 1 para o Santos depois de sair na frente, dentro de casa, é inaceitável. E ainda com um jogador a mais. É muita mediocridade.

Inaceitáveis, também, os comentários de Souza, colocando mais lenha na fogueira. Se ele fosse um jogador que estivesse fazendo a diferença, ainda vá, mas com a bolinha que anda jogando?

Não duvido que Renato, com os reforços meia-boca que está recebendo, ainda consiga reverter essa tendência de queda, escapando do rebaixamento.

No momento, porém, o melhor que se tem a fazer é rezar.

SAIDEIRA

O boato de que Fábio Koff pode concorrer à presidência do Grêmio sacudiu a cidade, o Estado. Curioso é que o boato surgiu no dia em que se anuncia um grande evento para lançar Paulo Odone. Existe um grupo no Grêmio, que hoje está no poder com os resultados que estamos vendo, que quer Odone longe do Olímpico. Para isso, é capaz de tudo. Até de lançar Koff para diluir o impacto que promete ter a candidatura oficial de Odone. Koff dificilmente largará o salário que recebe no Clube dos 13 para voltar justamente num momento em que poderá pegar o clube quem sabe até na segunda divisão. Não sou fã de Odone, mas não vejo outro nome melhor para assumir o clube.

A arte de saborear e identificar um bom sagu

É preciso uma certa técnica em tudo na vida. É preciso arte, um tanto de requinte até para as coisas mais prosaicas, mais simples.

Até para comer sagu é necessário, fundamental, uma certa sutileza, apreço a detalhes que normalmente dispenso para qualquer outro tipo de alimento, salgado ou doce.

É que o sagu é a minha sobremesa preferida. Cheguei a essa conclusão depois de meio século de vida. Passei por outras preferências. Arroz de leite e pudim de leite condensado são dois exemplos. Já estiveram no topo. Hoje, é o sagu. Com creme de baunilha, claro.

O problema é que o sagu virou uma obsessão. Entro no restaurante e vou direto ver se tem sagu. Quase todos tem. A maioria, porém, é desprezível.

Só pela cor já percebo que o sagu é ruim. O creme precisa ser… cremoso. Nem muito consistente, nem muito líquido.

O sagu bom tem cor escura, cor de vinho tinto. Já vi até sagu de refresco de uva. Um acinte, uma agressão.

Depois de avaliar a cor, analiso a consistência. A parte líquida deve ser cremosa e as bolinhas firmes, mas macias. O sagu deve, obritatoriamente, exalar um aroma de vinho. Caso contrário, me afasto.

Um sagu bom é também sinalizador de um bufê de sobremesa de qualidade, o que é válido inclusive para o bufê de saladas e de pratos quentes. Um sagu ruim, obviamente, aponta para o oposto.

Quem fizer o teste verá que tenho razão. Sagu bom é sinal de refeição boa.

Para saborear devidamente o sagu que passou no teste visual e de olfato, é preciso saber servir-se de modo adequado.

Eu ensino: pegue o pote (não pode ser pires, de jeito nenhum), coloque sagu até quase em cima. Depois, uma colher de sopa, ou duas, de creme. Eu costumo afastar aquela película mais sólida que se forma na superfície. Se não der, vai assim mesmo.

Agora vem o momento especial, o ápice, é como o atacante na cara do gol. É preciso jeitinho, uma técnica apurada para degustar o manjar que está à frente, indefeso como um goleiro diante do goleador.

Nesse momento eu sou o goleador.

É imperdoável misturar o sagu com o creme, dando voltinhas com a colher, como tem gente que faz com o prato feito.

Mergulhe a colher no sagu e depois no creme, nesta ordem. O creme não pode ocupar mais do que 30% da colher. Eu costumo ficar nos 20, 25 por cento.

Bem, aí chegou a hora de avaliar o sabor. Normalmente, seguindo os passos referidos, não haverá decepção.

Se tudo der certo, é só mandar ver e ir pra galera.

SAIDEIRA

Depois dessa louvação ao sagu legítimo, perfeito e imbatível como sobremesa, só falta uma dica. Onde comer um bom sagu? Descobri um lugar recentemente, perto da minha casa: Romana Becker, um restaurante familiar, comida boa e barata, caseira, alta qualidade. Custa 10 pilas na semana e 14 no sábado. O bufê de sobremesa é nota dez. Com destaque, claro, para o sagu. O restaurante fica na Marcelo Gama com Américo Vespúcio. Está ali há uns 40 anos. Um dos donos é o Astor, colorado doente. Ele é quem faz o sagu.

Antes, eu satisfazia minha fome de sagu no Mamma Mia, no bairro Floresta. Mas ele fechou. Agora, só em Gramado.

Aceito novas indicações.

FECHANDO A CONTA

Do jeito que a coisa está, não dá nem pra falar de futebol.

Roth arrumaria a casa no Olímpico?

Há uns três meses, poucos jogadores serviam para os colorados. A zaga era velha, os laterais irregulares, o meio-campo instável e o ataque inoperante.

No time ideal dos colorados, escapavam, alguns poucos. Unanimidade mesmo, salvo engano, o Guinazu. Depois, ficariam no time Sandro, Giuliano, D’Alessandro e Kleber. Bolívar, um dos líderes do time, era aceito por uns, desprezado por outros. Alecsandro todos queriam ver longe, uma injustiça.

Veio o Celso Roth e tudo mudou. Agora, observem que o setor mais importante de um time de futebol já estava fechadinho, aceito pelos torcedores quase sem restrição. Sandro, Guinazu, Giuliano e D’Ale. Tinga reforçou o meio-campo. Giuliano virou uma espécie de talismã.

Sobis, mesmo fora de sua melhor forma, qualificou o ataque.

O trabalho de Roth foi facilitado pelo fato de que ele já contava com um meio de campo formidável, o ponto alto do time, e também porque não havia focos graves de indisciplina e insurreição. Tudo isso ajudou. É claro que ele azeitou a máquina, corrigiu posicionamentos, etc. Mérito de Roth, sem dúvida. Ele fez o time render mais.

Se Roth tivesse desembarcado no Olímpico talvez não alcançasse o mesmo resultado em tão curto prazo. O comando do clube é apático e leniente, o vestiário é caótico e alguns jogadores pensam apenas em si e desprezam o essencial no futebol, o coletivo.
É intolerável ouvir Douglas dizer que não tem obrigação de marcar. No futebol moderno, só o goleiro não precisa marcar.

Sem contar o excesso de lesões. Duvido que exista no País algum time de ponta com tantos jogadores lesionados ao longo da temporada, boa parte delas musculares.

Alguém lembra do Leandro jogando três partidas inteiras consecutivas? E estamos em agosto, quase setembro.

A direção demorou demais a perceber o que a torcida já havia visto há muito tempo: Silas não servia. E isso agravou a crise.

Por fim, a qualidade técnica do time. Vou citar jogadores que já deram boa resposta outras vezes e com alguma freqüência, o que pode ser um indicativo de que num time ajustado podem ser úteis: Edilson, Rafael Marques, Neuton, Adilson, Magrão, Maylson, Rochemback, Douglas, Souza, Hugo, Jonas, Borges e André Luís. E, claro, o Victor.

Os demais, tirando os jovens da casa, não fazem falta. O mesmo vale para algum nome da lista acima que não passar a mostrar mais comprometimento. Aliás, total comprometimento.

Renato não poderia ter voltado ao seu clube de coração em pior momento. Já escrevi isso antes de ele assumir. Se ele tiver mais apoio, inclusive do festejado preparador físico Paulo Paixão (que me parece ausente), ainda pode dar certo.

Cabe à torcida participar, ir aos jogos, incentivar e depois cobrar.

É preciso exigir mais garra do time, de todo o time, mas sem esquecer a direção.

É preciso mais garra também da direção.

SAIDEIRA

Sábado fiz um curso para cervejeiro. Em breve, estarei lançando a minha cerveja. Todos os botequeiros serão convidados, com exceção dos petistas.
Quem tiver interesse em aprender a fazer uma cervejinha caseira aqui vai a minha dica (garanto que é fácil):

Alquimia da Cerveja – www.alquimiadacerveja.com
Blog Pessoal – www.mestresdacerveja.com.br
“Uma viagem ao Mundo e a Cultura da Cerveja Artesanal”

Uma orquestra maluca e a falta de um camisa 5

O Grêmio mantém sua rotina no Brasileirão: não consegue vencer fora de casa.

Pior que a derrota por 2 a 1 para o Ceará, liderado pelo quase ancião Geraldo (autor do gol da vitória no ‘apagar das luzes’, como se dizia antigamente), foi a atuação do time.

Na verdade, não há time, não há uma equipe.

A impressão é de que ontem cada jogador parecia músico de uma orquestra maluca, na qual cada um toca uma música. À beira do campo, o maestro parecia nada entender, perdendo o controle total de seus músicos, que, para agravar, estavam completamente desafinados.

O Grêmio foi um amontoado desconexo, em descompasso. Um time sem noção.

Não responsabilizo o técnico Renato pelo que aconteceu. A herança que ele recebeu de seu antecessor e da diretoria é macabra.

Renato sabia onde estava se metendo. Eu escrevi que a missão talvez fosse pesada demais para ele. Agora, cabe a ele tomar as providências para começar a montar uma equipe de futebol, na qual todos os jogadores toque a mesma música, tenham o mesmo objetivo, igual comprometimento.

Quem ousar tocar pagode numa peça de jazz,que caia fora. Já. Agora. Ontem.

É preciso uma faxina no vestiário. Quem está lá tem condições de avaliar muito melhor do que nós, observadores distantes, quem está descompromissado, desinteressado, sem qualquer envolvimento com o clube.

A fase da conversa ao pé do ouvido, no canto do vestiário, já passou. A hora é de fazer sangrar a ferida, até escoar todo o sangue ruim que circula pelas artérias, comprometendo todo o organismo.

Na verdade, isso deveria ter sido feito há uns três ou quatro meses, ou pelo menos no momento em que houve uma pausa no Brasileiro por causa da Copa do Mundo.

Ainda há tempo. Não muito, mas ainda é possível fazer essa orquestra tocar a mesma música, que até pode ser um pagode, mas de preferência tangos arrebatadores e passionais, que tem mais a ver com a garra e a tradição do Grêmio.

Agora, se o time do Grêmio tivesse a mesma harmonia, o mesmo entrosamento e a mesma disposição que tem a torcida quando canta o hino do RS com certeza a situação hoje seria completamente oposta.

SAIDEIRA

Só não pode é fazer terra arrasada. Ontem, conversando com alguns torcedores e ouvindo manifestações pelo rádio, vi que o pensamento geral é de que nada mais presta, ninguém joga nada e todo mundo deve ir embora. É nessa hora que são cometidas injustiças. Por exemplo, Willian Magrão não foi bem, até fez gol contra, mas se trata de um titular inquestionável. Ontem, ouvi gente dizendo que ele está acabado, que não tem condições, etc.

Acho que é preciso focar nos que vieram de fora e nada trouxeram, a não ser a vontade de ganhar muito dinheiro e depois partir.

Ouvi também o presidente do clube dizer que todos elogiaram as contratações feitas no começo do ano, e que por isso agora têm mais é que ajudar. Bem, eu critiquei quase todas as contratações, começando pelo Ferdinando e Leandro, e passando pelo Hugo e Borges, que até me surpreendeu positivamente, mas que é outra figurinha complicada.

FECHANDO A CONTA

O maior reforço que o Grêmio poderia ter agora é um camisa 5 com qualidade, experiência e liderança. Sugestão: Bataglia, do Boca. Ah, é caro? Simples, é só mandar embora dois ou três que ganham muito para não trabalhar.

O polêmico anúncio do Grêmio

O anúncio do Grêmio cumprimentando o Inter pelo bi da Libertadores mexeu com os colorados. Andam muito sensíveis os colorados.

Para quem não viu, é página inteira. Uma foto da torcida gremista, o distintivo do clube, e, acima, o texto provocativo, cheio de humor, mas que ao mesmo tempo revela, escancara, a dor gremista neste momento de glória vermelha:

O PRIMEIRO CLUBE GAÚCHO
A CONQUITAR O BI DA AMÉRICA
DÁ PARABÉNS AO SEGUNDO

Depois, como linha de apoio:

Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Desde 1995, bicampeão da Libertadores.

No final da manhã, na Gaúcha, ouvi dois apresentadores atacando a iniciativa tricolor. Coincidência, ou não, ambos colorados.

Um deles, mais irritado que o seu colega, vociferava que esse tipo de brincadeira cabe ao torcedor, nunca ao dirigente, à instituição.

Os colegas esqueceram que esse tipo de provocação existe há tempos, que não é a primeira, nem a última vez.

Esqueceram, por exemplo, que os dirigentes colorados, principalmente o presidente, sempre que pode alfineta o Grêmio, sempre lembrado mesmo no auge das comemorações coloradas. Idem, em relação ao Grêmio. Sempre foi assim, sempre será.

Se forem brincadeiras nesse nível, sem apelação, tudo bem. Não vejo motivo para alguém ficar irritado, ou tão irritado a ponto de ir ao microfone reclamar. Ainda mais quem está por cima.

Ao Grêmio, que está por baixo agora, só resta esse tipo de coisa, é uma maneira de amenizar a dor, nada mais do que isso.

Só espero que a direção gremista tão ágil e eficiente para publicar o anúncio provocativo, tenha a mesma agilidade e eficiência para colocar a casa em ordem.

A torcida gremista espera muito mais do que esse tipo de manifestação.

Espera uma direção com capacidade de planejamento, administração e execução, o que sobra no Inter nesses últimos anos.

Caso contrário, o Grêmio vai passar muito tempo ainda publicando anúncios de parabéns ao seu maior rival.

E aí já não haverá mais o que ironizar.

De novo uma década vermelha

Toca a campainha às 8 e meia desta manhã. Ao longe, ainda detonam alguns foguetes. Moro longe da área de maior tumulto, mas tenho vizinhos que gostam de soltar foguetes, não importa o horário. Foi uma noite mal dormida.

Abro a porta. É um motoboy, de uns 20 anos, todo fardado de Grêmio. Só faltava a chuteira.

– Bah, cara, tu é corajoso, hein?

Ele responde, mais rápido que o Taison fugindo pela esquerda:

– A gente não pode se mixar pra ‘eles’. Só agora, 15 anos depois, ‘eles’ conquistaram um título que a gente já tinha. A gente não pode é se acomodar.

Peguei a encomenda, assinei o recibo e agradeci.

Ele montou na moto, enfiou a cabeça num capacete azul e arrancou.

Não há bem que sempre dura, nem mal que nunca acabe – já diziam os avós.

No futebol não é diferente. Esse motoboy, entristecido, mas altivo em seu gremismo, ainda terá muitas alegrias com o seu clube. O futebol é assim. É como a vida, ciclos que se alternam. Por vezes, bons; outras vezes, nem tanto; e alguns ruins. O problema é que os ruins marcam mais.

Eu sou um sobrevivente da década de 70. Sou curtido, forjado naqueles anos de muito sofrimento para os gremistas. Eu era jovem. A década de 60, de supremacia tricolor, eu acompanhei do Interior, pelo rádio, pelos jornais, recém brotava para a adolescência. Tudo ainda muito distante.

Quando o Inter inaugurou o Beira-Rio e começou sua reação, eu preparava as malas para vir para a cidade grande, deixando Lajeado para trás.

O Inter passou a empilhar títulos regionais justamente nessa fase. Quando desembarquei em Porto Alegre, em 71, o Inter já era bi gaúcho, se encaminhava para o tri. A única alegria nesse período foi ter o gremista Everaldo como titular da maior seleção brasileira de todos os tempos, a maior seleção de futebol de todos os tempos, a de 70. Quem tem, tem, quem não teve, nunca terá.

Apesar de tudo, me associei ao Grêmio, para torcer, curtir suas piscinas e suas gurias.

Depois, vieram os dois campeonatos brasileiros. O Grêmio, em 77, interrompeu a série de títulos gaúchos do rival. Foi muita emoção, a minha primeira grande emoção como torcedor adulto, de arquibancada no sol, na chuva ou no frio. Inesquecível.

Em 79, um balde de água vinda das geleiras da Antártica: o título brasileiro invicto do Inter, o tri. O Grêmio não tinha unzinho sequer.

Não há mal que nunca acabe…

Em 81, o Grêmio conquistou o brasileiro. De novo, muita emoção. No ano seguinte, o vice, numa final roubada para o Flamengo. Eu era repórter da TV Bandeirantes, repórter de campo nas transmissões para todo o país. Vi de perto a garfeada.

Depois, a Libertadores e o Mundial. Nada podia ser maior. O sofrimento dos anos 70 estava plenamente recompensado. A partir daí, foram os colorados que penaram.

Então, quem foi curtido nos anos 70 não se assusta. Hoje, continuo gremista, claro, mas um gremista amenizado pelo tempo e pelo longo trabalho na imprensa esportiva. Foi através desse trabalho que aprendi a admirar e até a gostar do Inter, que me acolheu muito bem como jovem setorista em 1976, como estagiário do extinto Diário de Notícias.

Nos anos que se sucederam consolidei uma convicção: não vale a pena canalizar nossas energias para o futebol.

Ganhou, ótimo, vamos festejar. Perdeu, pena, vamos seguir em frente. Amanhã, pode ser a nossa vez.

O Inter mereceu ser campeão. Sua direção fez a diferença. Errou ao escolher Fossati. Corrigiu o erro a tempo. Reforçou o time a toque de caixa. Resultado: o bicampeonato da Libertadores.

O futebol requer planejamento, mas também improvisação. Requer competência, conhecimento, agilidade. Tudo isso sobra no Inter.

O Inter fez por merecer, assim como o Grêmio no passado. Estão de parabéns os colorados. A cidade amanheceu vermelha. Um dia já foi azul. E se nada for feito no Olímpico, haverá de seguir cor de sangue por muito tempo.

Mas, como ensinou o motoboy fardado de azul, branco e preto que encontrei nesta manhã colorada, é preciso não se encolher, e reagir.

O Grêmio AINDA é muito grande.

SAIDEIRA I

Não tenho qualquer dúvida de que o Grêmio deixou escapar o tri da Libertadores no ano passado por absoluta incompetência de seus dirigentes, em especial dos dois que comandavam o futebol, mas também do presidente, que parece nada ter aprendido com lideranças que conheceu de muito perto, como Rudy Petry, Olmedo, Hélio Dourado, Fábio Koff, etc.

SAIDEIRA II

Dias desses, um botequeiro lembrou de uma previsão do astrólogo Bruno Vasconcelos, feita se não me engano em dezembro de 2003, no Correio do Povo. Bruno, de quem acabei ficando amigo depois de muito tempo fazendo previsões a cada final de ano sobre a dupla gre-nal, previu que o Inter passaria a viver um período semelhante ao da década de 70, acumulando conquistas.

Bruno morreu faz três anos. Depois de sua morte, em respeito à sua memória e chateado com o deboche de ouvia de colegas (uns poucos, mas irritantes) sobre esse meu trabalho, desisti de publicar previsões astrológicas nas páginas do CP.

Complô vermelho para evitar a festa antecipada

Enquanto aqui há um esforço concentrado para evitar o ‘já ganhou’, a imprensa do resto do País é transparente, não mocoseia a realidade, ou seja, o Inter já é bi da Libertadores, igualando-se ao Grêmio e, a continuar nesse ritmo, se preparando para superar o glorioso tricolor de tantas conquistas num passado cada vez mais distante.

O site do Estadão estampa: O Inter pronto para a festa do Bi.

Não poderia ser mais correto e honesto esse título. Afinal, o Chivas não tem a menor condição de impedir nova derrota.

Há um ufanismo contido em todos os setores colorados, começa pela direção, passa pela torcida e invade a imprensa, que se torna cúmplice, ou parceira, como queiram, dessa tentativa de mascarar os fatos. Um complô vermelho.

O site do Correio do Povo destaca uma frase do presidente Piffero: “Estamos prontos para sofrer”.

Esta é uma noite em que não haverá sofrimento, nem de colorados nem de gremistas, porque todos sabem o final.

Se bem que sempre haverá quem sofra. Por exemplo, quem não sofre com o foguetório?

Eu, que nunca soltei um foguete, no máximo brinquei com rojões quando guri nas ruas de Lajeado, quero distância. Mas sei que da barulheira não vou escapar.

Aliás, já comecei mal o dia. Acho que ali pelas sete da matina um vizinho desvairado inventou de soltar foguetes. Foram uns dois ou três minutos. Parecia uma eternidade. Era um colorado festejando o título por antecipação, já que claramente ele queria saudar o início do dia histórico.

Depois, peguei engarrafamento acima do normal para chegar ao meu trabalho. A impressão que tive é que os colorados já seguiam para o Beira-Rio às 9 da manhã.

Eu, que pensava em buscar a segunda via do título de eleitor (inventaram que é preciso apresentar o título, não apenas a carteira de identidade como tenho feito à décadas), desisti. A Junta Eleitoral fica na Padre Cacique, próximo ao Beira-Rio. Deve estar um inferno aquela área da cidade. Um inferno que deve se alastrar gradativamente ao longo do dia.

Acho que na hora do jogo vou tomar um negócio para dormir, algo forte como o que tomou meu amigo Chico Izidro, do CP, quando o Inter disputou o Mundial com o Barcelona. Ele se apagou.

Para o Chicão, que nunca frequenta este boteco (o que até é bom porque ele terminaria com o estoque etílico), o Inter continua sem ser campeão do mundo. Tudo não passa de um delírio colorado, de um longo pesadelo que promete ser interminável.

Tempos difíceis

É elogiável esse esforço da direção colorada para esquentar o jogo contra o Chivas, que na realidade não tem a menor condição de evitar uma derrota, que tudo indica será até por goleada.

Blindagem de jogadores, proibição de tecer qualquer comentário sobre o ‘poderoso’ time mexicano, trabalho para evitar o clima de euforia até entre os torcedores, o que é impossível. Nada de oba-oba.

Agora, nada acalma a mídia colorada, em êxtase neste momento de glória. O pessoal não se contém, soltou a franga geral. Não duvido que alguns deles sejam vistos na Goethe depois do jogo de amanhã. Bem, até aí nada demais, porque fosse o Grêmio na decisão da Libertadores e com uma papinha pela frente a euforia seria igual.

O título é tão inevitável quando a vitória da Dilma, do Tarso, da mãe do Badanha, etc.

Dias atrás previ, com base na minha traiçoeira bola de cristal, que o Inter será campeão da Libertadores, do Mundial e do Brasileirão.

Sábado, ao assistir, casualmente, a parte do jogo da Inter contra o Milan (Ronaldinho se arrastando e perdendo pênalti), afastei qualquer dúvida: o Inter gaúcho, se conseguir manter o time atual, vence a Inter italiana.

Enquanto isso, o Grêmio vai atrás de jogadores sem maior expressão, novas apostas do cassino tricolor.

Gabriel, o filho do Vladimir, pode ser uma solução para a direita, sem dúvida. Mas não sei como ele está.

Agora, esse Wilson, do Vitória é uma aposta. acho que seria mais sensato apostar no Saimon e outros da base.

Tem esse lateral, o Gilson, do Paraná. Parece que o Felipão o havia indicado para o Palmeiras. Se isso fosse verdade, não conversa de empresário, acho que ele teria ido para São Paulo. É outra aposta.

Agora, não dá nem pra condenar as indicações do Renato. O dinheiro todo e mais um pouco foi gasto com as indicações do Silas sob a batuta do sr. Meira, que deixou um legado difícil de ser administrado.

O fato é que Renato já constatou que as laterais estão desprovidas de talento, coisa que a maioria da torcida já havia percebido.

Bem, são tempos difíceis, muito difíceis.

A recuperação gremista e as injustiças no futebol

No tópico anterior escrevi que o melhor que poderia ter ocorrido para o Grêmio, neste momento, foi a eliminação da Sul-Americana. Assim como o Goiás, que vai cair logo adiante, o Grêmio também não iria longe e ainda comprometeria a trajetória no Brasileiro.

Com foco na luta para sair da zona de rebaixamento, o time armado por Renato Portaluppi não foi nenhuma maravilha, mas ao menos estava mais arrumado, mais brigador, mais concentrado. O resultado foi uma vitória por 2 a 0, sem maiores sobressaltos, tanto que Victor praticamente não trabalhou.

Willian Magrão, autor de gols, poderia ter feito ao menos mais um. O Goiás escapou de levar uns 3 ou 4 a 0, sem exagero.

E pensar que estavam colocando o Magrão de zagueiro, deixando de explorar o maior potencial desse jogador, que é a chegada forte ao ataque.

Os maiores problemas do time foram os laterais. Ambos são irregulares.

Ferdinando é um volante razoável, um bom reserva, nada mais do que isso.

Neuton foi o grande destaque do time. Gostei também do Douglas, mais comprometido com a partida, e do Jonas.

Não sei exatamente o que começa primeiro: as individualidades prejudicam o coletivo; ou se o coletivo mal ajustado é que prejudica as individualidades. As duas opções estão corretas, a meu ver.

É muito perigoso julgar jogadores em meio ao caos técnico e tático de um time, como estava ocorrendo com Silas. Neuton, por exemplo, começava a se transformar num perna de pau para muitos torcedores. E aí, num time mais organizado, ele ressurge com força, qualidade e ousadia.

Neuton pode jogar tanto de zagueiro pela esquerda como de lateral.

Ainda é cedo, mas já se vislumbra uma equipe de futebol no Olímpico.

Falam em contratações. Antes de buscar medalhão decadente e jogador mediano, melhor investir firme na base.

SAIDEIRA

É impressionante o clima de decisão que tentam armar para o jogo contra o Chivas. O time mexicano já está liquidado. O mesmo time que perdeu para o Fluminense por 3 a 0, com mais uns três reforços, ganha do Chivas no Beira-Rio lotado.

Aí vem o Guinazu dizer que só fica fora se cortarem a sua perna. Vai fazer média com a torcida assim…

O Tinga faz tratamento intensivo para não ficar de fora. Só se for para participar da festa, entrar na fotografia do time campeão da Libertadores, título, aliás, do qual ele não participou. Pelo contrário, quase comprometeu ao ser expulso no Morumbi.

Na verdade, o lugar na foto deve ser do Giuliano, não do Tinga.

O que dizer, então, do Renan? Muito mais direito tem o Abondanzieri de aparecer na foto de campeão. O argentino merece até por seu comportamento profissional, sofrendo calado a injustiça de ter sido descartado na hora do filé.

O castigo vem a galope, se diz na campanha.