A goleada no Antes e Depois das redes sociais

É divertido ler o Antes e o Depois nas redes sociais. Antes dos 4 a 0 sobre o Juventude, havia ranço, desconfiança e até raiva antecipada em função de uma atuação ruim que o Grêmio faria por estar, segundo os sabichões, mal escalado, desorganizado e tudo mais de negativo.

Muito dessa má-vontade ocorreu porque o técnico Renato havia decidido escalar Léo Moura no meio-campo, trazendo de volta o titular Edílson. Quer dizer, nem em jogo do Gauchão, que muitos desses torcedores que fazem crítica pela crítica desprezam, o treinador tem carta branca para fazer experiências projetando aquilo que interessa e que vocês estão careca de saber.

Quando acontece que depois de tanta previsão agourenta o time vence, joga bem, convence e empilha gols, esses mesmos integrantes da Associação dos Eternamente Insatisfeitos, ficam atrás da moita, poucos aparecem, e quanto o fazem não é para reconhecer que erraram, que exageraram no bombardeio ao Renato, à comissão técnica, à direção, aos jogadores, ao pipoqueiro, ao gandula, etc.

Algumas das críticas era porque Renato protege seus ‘bruxinhos’ ao trazer de volta Edílson, em vez de manter Léo Moura como titular na lateral. Uma bobagem sem tamanho. Curioso é que a imensa maioria da torcida criticou a contratação de Léo Moura – eu fui quase voz isolada na defesa do Professor, que dá aula de como se joga na lateral, e agora também no meio. Qualidade técnica, experiência e bom preparo físico dá nisso.

Ora, a experiência feita por Renato não tem nada de extraordinária, muito menos de absurda. Estava caindo de madura essa entrada de Edílson e a passagem de Léo Moura para compor o meio, executando uma função de volante/meia. 

É impressionante como tem gremista que se apressa em atacar qualquer coisa que Renato faça ou diga. Muitas vezes quebram a cara, mas não adianta, na próxima rodada essa turma estará de volta para acionar a metralhadora giratória.  

Edílson terminou a temporada em alto nível. Seria justo que voltasse a qualquer momento. Não sei se contra um adversário mais forte, pela Libertadores, essa alteração terá o mesmo resultado.

Mas penso que Renato deve continuar nesse caminho, até porque Jaílson caiu de rendimento, parece meio perdido, e precisa de um tempo para clarear as ideias. O grupo é esse e é necessário buscar alternativas em vez de ficar choramingando pelos cantos a falta de reforços.  

Eu aplaudo essas tentativas, ainda mais no regional do Noveletto. 

Se não fizer experiências agora vai fazer quando? 

O JOGO

O Grêmio fez aquilo que um time grande deve fazer quando joga com um pequeno. Foi pra cima, marcou forte e foi aproveitando as oportunidades que surgiam.

Para facilitar, o Juventude ainda se meteu de pato a ganso no começo. 

O primeiro gol foi um contra-ataque que começou com Pedro Rocha no campo de defesa, na intermediária, a bola sobrou para Ramiro, que devolveu para PR, em alta velocidade. O guri deu um passe preciso para Bolanos, que invadiu a área e tirou do goleiro. Um golaço. Um gol com a marca de um matador frio e cruel. Já vi muitos jogadores perderem gols em situação idêntica. Mas Bolanos não é de perder gols.

A partir daí, o Grêmio ficou à vontade para empilhar, e só não faz mais porque tirou o pé do acelerador após o terceiro gol. O segundo foi de Michel, que jogou mais à vontade e até apareceu na área adversária. Depois, Léo Moura, o Professor, pegou rebote do goleiro na cobrança de falta de Edílson. Luan fechou a goleada cobrando pênalti. No primeiro tempo, quase no final, Pedro Rocha sofreu carga por trás na área, pênalti, mas Daronco não deu.

 

No próximo jogo, contra o São Paulo, Renato vai escalar um time reserva. Oportunidade para ver outras opções, como Bruno Cortês.

FUTSAL

Vi a despedida de Falcão em jogos oficiais da seleção brasileira, jogo contra a Colômbia.

Peguei o jogo pelo meio. Parei pra ver porque sou fã do Falcão. O Brasil fez 3 a 2. Um de Falcão.

Mas o que interessa é que Falcão fez quando faltavam menos de dois minutos pra terminar.

Ele prendeu a bola na frente de um marcador gingando de um lado pro outro. Juro, parecia o Garrincha naqueles filmes em preto e branco.

Foram uns 30 segundos, e o adversário não arriscava o bote porque seria driblado.

Foi uma cena antológica.

Fosse no futebol de campo, apareceria alguém pra ‘levantar o Falcão’ e ainda pisar no seu pescoço.

Falcão, claro, receberia cartão amarelo por ‘atitude antidesportiva’, e o agressor seria festejado pelos colegas e sua torcida.

Saudade do tempo em que a arte prevalecia nos gramados.

 

 

Professor Léo Moura evita a derrota

O gol do Professor Léo Moura (sim, ele dá aula de como se joga de lateral) evitou a derrota do Grêmio diante do líder do Gauchão.

Foi um jogo equilibrado, mas quem sempre chegou com mais perigo foi o Novo Hamburgo. No final, o empate por 1 a 1 foi um presente para o time de Renato Portaluppi.

Confesso que fiquei impressionado com os primeiros 20 ou 25 minutos do Grêmio, com seu ataque móvel, a gurizada confundindo a marcação do NH.

Pensei, é hoje que o esquema sem aipim se firma. Que nada!

O NH começou a reagir, melhorou a marcação e soube explorar contra-ataques. Foi assim, num contra-ataque, que marcou o gol, numa jogada bem tramada e muito rápida.

O empate aconteceu nos minutos finais, quando Marcelo Oliveira acertou um lançamento milimétrico, em diagonal, nos pés de Léo Moura, que dominou com categoria de mestre e concluiu com precisão cirúrgica.

A noite tricolor estava salva.

Seria muito ruim explicar uma derrota depois de uma sequencia de empates e atuações opacas.

Está muito claro que o time sente falta de mais qualidade no meio de campo. 

Sem Douglas, Maicon e Bolanos o time fica comum, esta é que é a verdade. Nem vou falar no Wallace.

Então, a meu ver, cobrar do time atual algo parecido com o desempenho do time que ganhou a Copa do Brasil é insano.

Mas é possível questionar algumas decisões do Renato. Por exemplo, Lincoln poderia ter entrado muito mais cedo, não aos 30 do segundo tempo, logo após o gol do NH. A opção por Gaston não foi a mais correta. O argentino recém chegou, recém está se ambientando – embora tenha gente que considere isso uma frescura.

A bem da verdade, não acredito que faria muita diferença. Mas está passando da hora de dar mais moral para o Lincoln.

Até para ver se ele poderá ser útil naquilo que interessa, a Libertadores.

 

Mais tolerância com Jaílson e o caso Fifa

Aqueles torcedores que cobram mais oportunidades aos jovens da base são, em grande número, os primeiros a vaiar ou a murmurar diante do primeiro erro do noviço.

Importante frisar que o guri forjado no clube sabe que precisa mostrar serviço logo, o que o torna mais ansioso dentro de campo, preocupado em fazer a grande jogada, o gol de placa, etc.

Quando mais ajustado o time e menos responsabilidade for jogada sobre os ombros do iniciante, maiores as chances de sucesso.

No caso do Grêmio, neste momento de transição, em que faltam os três principais jogadores que ditavam o ritmo e o modelo de jogo do time implantado ‘com’ Roger (não ‘por’ Roger, cuja parte foi ter a sabedoria de vislumbrar o que poderia ser feito com Wallace, Maicon e Douglas, além de Luan), torna tudo mais difícil para as individualidades.

Escrevo sobre isso porque não aceito o peso que querem jogar sobre Jailson. Esse jovem jogador apareceu de maneira coruscante (adjetivo muito usado pelo meu amigo David Coimbra) no ano passado. Sei de muitos colorados que ficaram com inveja por não terem jogador igual.

Pois agora, quando Renato tenta moldar um outro esquema diante das carências citadas – e ainda assim leva pau dos apressadinhos e raivosos de plantão  -, Jailson não consegue repetir o mesmo futebol. Aquele torcedor que aplaudia, hoje critica.

O torcedor é assim, mas da mesma maneira que ele não consegue ser tolerante com os jogadores eu não preciso ser tolerante com eles.

Eu os entendo, mas não me revolto contra esse comportamento.

Jailson, pra mim, continua sendo aquele jovem que estourou do nada no ano passado, a ponto de ter muita gente defendendo sua titularidade.

O que acontece é que ele está assumindo funções um pouco diferentes ao lado de um jogador de nível médio, o Michel, que até tem potencial para evoluir.

Caiu o futebol de Jailson, como caiu o futebol de todo time, até em função de lesões e convocações, como a de Bolanos.

Então, o que eu defendo é mais paciência com os novatos como Jaílson.

Espero, também, que Renato dê uma sequência de jogos para Lincoln provar que pode ser um articulador do time ao lado do Luan.

Sobre o jogo contra o líder NH, nesta quarta, espero que Renato comece com Éverton fazendo o lado direito, com Luan jogando com total liberdade.

NÃO VAI ROLAR

Boa parte da crônica esportiva se fardou na esperança de ver o Inter escapar, via tapetão, de disputar a segundona.

O que aparece nos textos e nas falas reflete apenas um pouco do alvoroço existente nas redações.

O clima é tenso, mas há confiança no êxito da direção colorada.

Aqueles que antes condenavam a tentativa de ganhar no tapetão, hoje já se mostram mais simpáticos à ideia.

Não importa se o time perdeu seus dois jogos contra o Vitória.

Fico imaginando os suíços analisando o caso na Fifa.

Vai ser difícil explicar pra eles por que o Inter se acha no direito de ganhar uma vaga de um time que o venceu nos dois confrontos.

Acho que não vai rolar…

Centroavante aipim, o plano B de Renato

O Grêmio ‘cometeu’ um primeiro tempo desolador. No segundo, recuperou-se. Mas ainda assim saiu de campo devendo, porque criou muito tempo ofensivamente, e praticamente não deu trabalho ao goleiro do VEC.

Apesar de tudo isso, não merecia vaia na saída de campo. Como disse um torcedor após o empate por 1 a 1, tudo isso não passou de um treino para a Libertadores, e torcedor que é torcedor mesmo não vaia treino.

O melhor do jogo foi uma frase do Renato, na coletiva. Foi mais ou menos assim: pelo menos nós agora temos um plano B. Referia-se a entrada desde o começo do centroavante, o Barrios, um aipim mais refinado. Mas ainda assim um aipim.

A Associação dos Aipinistas Unidos, que tem no vitorioso ex-dirigente Cacalo seu mais fiel e radical integrante, trabalhou forte para o Grêmio contratar o tal ‘camisa 9 que decide os jogos com gol de cabeça’. Vieram dois: Jael e Lucas Barrios. O dirigente que se orgulha de ter empilhado centroavantes comemorou. Nada contra, cada um com suas preferências no futebol. O problema é que Cacalo aparentemente é muito ouvido no Grêmio, e acaba influenciando de alguma forma nas contratações.

Bem, pelo menos o Renato me tranquilizou. Ficou muito claro, ao menos pra mim, que aipim pra ele só frito. No mais, fica como opção de jogo, uma alternativa para variar o esquema.

O plano A, portanto, é o esquema que deu certo no começo de Roger e com o próprio Renato, que, na mesma entrevista, disse que quer ver o time jogando da maneira que jogou no final do ano, conquistando a Copa do Brasil (sim, é sempre bom lembrar que há três meses o Grêmio interrompeu uma seca de 15 anos).

Então, é óbvio que o esquema preferido de Renato – para desespero da tal Associação, que está programando uma reunião de emergência para os próximos dias – é mesmo sem um atacante fixo na área, esperando bolas pelo alto.

Dois aspectos a destacar: o gol de atacante fixo na área foi marcado por Luan, um meia que se movimenta por todo o ataque, recebendo a bola, do Ramiro, justamente no lugar onde são plantados os aipins. Fica provado, de novo, que não é preciso ter um camisa 9 de carteirinha, basta ter jogadores de qualidade, que se movimentem e se revezem na frente, infernizando a marcação.

O segundo aspecto eu observei e o Renato destacou na entrevista: com Barrios em campo o time gremista forçou demais a bola pelo alto, inclusive com os velhos e superados chuveirinhos. O pessoal meio que se sentiu obrigado a alçar bolas. Renato criticou isso e corrigiu o problema no segundo tempo.

Até porque acabou sacando Barrios para dar mais mobilidade ao ataque.

Então, não esquentem: aipim com Renato é plano B.

 

Vida de repórter

Vida de repórter

O texto abaixo foi publicado na revista Press, edição 127, em 2010, logo que saí, por vontade própria, do Correio do Povo.

Fui provocado pelo editor Marco Antonio Schuster, velho companheiro dos tempos da Folha da Tarde. Na verdade, me senti homenageado pelo Schuster. A quem sou grato pela oportunidade de contar um pouco da minha ‘Vida de Repórter’, título da seção da excelente publicação do abnegado Júlio Ribeiro.

Bem, se tiverem paciência leiam até o fim, ou fiquem mesmo só no título, que sintetiza minha trajetória na reportagem:


Ilgo Wink: incansável, e insaciável, na briga pelo furo

Em 1976, no meio do curso de Jornalismo da Ufrgs, fiz estágio no Diário de Notícias, que estava em declínio, agonizando. Entrei na editoria de esportes. Jorge Mendes era o editor. Pato Moure o setorista do Grêmio. Substituí o Wianey Carlet, que trocava o Diário pela rádio Gaúcha, no Inter. 

Foi legal, porque convivi com grandes ídolos do futebol gaúcho, jogadores que eu costumava vaiar nos grenais e que só me faziam sofrer nas arquibancadas do Olímpico. Saí do jornal na terceira vez que o motorista da empresa não me buscou no Beira-Rio, no final de tarde, noite chegando. Na primeira, voltei de ônibus. Na segunda, ganhei carona do Falcão. Na terceira, fui para casa e nunca mais entrei na redação do Diário, onde fiquei uns dois meses.

Não perdi tempo. Nessa idade, a gente tem muita pressa – hoje o guri entra na faculdade e já no primeiro dia corre atrás de um estágio.

Entrei na Folha da Manhã, logo depois da crise que culminou na debandada do Ruy Ostermann e de outros jornalistas talentosos. Meu editor era o Rogério Mendelsky. Editoria de geral. Fiz alguns bons trabalhos. Assinei matéria de uma página sobre o fechamento da livraria Coletânea. Foi a primeira que levou o meu nome. Fiquei todo orgulhoso. 

Acho que o pessoal gostou – ninguém me falou nada, e também não recebi nenhum tipo de orientação, e sentia falta disso -, porque logo fui escalado para cumprir uma pauta sobre turismo na Serra gaúcha. Foram cinco dias de galeto, polenta, salame, queijo e vinho. E muito pó, porque eu decidi sair do circuito tradicional e me embrenhar pelo interiorzão de Caxias, Bento, Garibaldi, Veranópolis. Descrevi minhas descobertas numa série de reportagens. Senti que ali era o meu chão. 

Foi então que passei num concurso público federal, Banco Central. Pedi demissão, acreditando que, com mais dinheiro no bolso, poderia viver sem o jornalismo. 

Descobri que não conseguiria sobreviver sem essa ‘cachaça’ quando estava perto de me formar, no final de 1978. Sucumbi à tentação quando o Júlio Sortica, colega da Fabico/Ufrgs, me disse que estava saindo da editoria de esportes da Folha da Tarde. Ele e o José Evaristo Villalobos, o Nobrinho, se transferiam para a Zero Hora.

O Sortica sugeriu meu nome para o editor, o inesquecível Jair Cunha Filho, um sujeito generoso, amigo, competente. Fui fazer um teste. O Jair me deu a pauta: cobrir o treino do Inter de manhã, para a Folha da Tarde Final, que saía à tarde. 

Era um treino sem graça, trivial. Difícil de encontrar um ‘gancho’ interessante. Mas eu estava decidido a descobrir algo novo. Não iria voltar para a redação com ‘abobrinha’, de jeito nenhum. Foi então que vi o Mica, um ponta do time júnior, veloz, bom cruzamento, chute forte. O Inter estava perdendo – ou já havia perdido – o Valdomiro. Ah, não tive dúvida. Fiz a matéria em cima do Mica, apontando-o como provável sucessor do velho ídolo.

O Jair abriu página com a minha matéria e uma foto em três colunas do Mica. Eu estava contratado. Assinei no dia 9 de outubro, um pouco antes de concluir o curso. Larguei o emprego público. A ‘cachaça’ havia vencido.

No domingo, Mica estreava no time colorado e eu na cabine de imprensa do Beira-Rio. Do meu lado, o grande Fernando Goulart, meu guia e meu mestre na arte de fazer setor. Torcia pelo Mica, não por ele exatamente, mas pela minha matéria. A partir daquele dia eu deixava de ser gremista. Meu time era minha profissão. Eu era Ilgo Futebol Clube.

Lá pelas tantas, um colega, repórter da revista Placar na época, fez um comentário ironizando a “matéria da Folha Final enaltecendo o Mica como sucessor do Valdomiro”. Ouvi algumas risadinhas. Ninguém sabia que eu era o autor da matéria, ao menos penso assim até hoje. Minutos depois, Mica cobrou uma falta e fez um golaço, um chute forte, ao estilo de Valdomiro. Foi a primeira vez que vibrei com um gol do Inter. O Fernando, que estava comigo, entendeu minha alegria.

Três meses depois, em janeiro, boa parte da turma em férias. O Francisco Vitorino, editor interino, entra na redação dizendo que a Folha da Manhã – se não me engano, havia um revezamento nas viagens dos dois jornais – não tinha ninguém para acompanhar o Inter no torneio de Verão de Mar Del Plata, e lamentando que a empresa não tinha um repórter de jornal na excursão. 

O setorista titular era o Fernando, em férias, e eu recém estava começando. É claro que ele nem cogitava de me escalar. Mas eu me apresentei, lembrando a velha máxima do técnico Gentil Cardoso, anos 50: “Quem pede recebe, quem se desloca tem preferência”.

– Seu Vitorino, eu sou rápido pra fazer as malas -, arrisquei.

Ele arregalou os olhos, coçou o bigode. Que foca atrevido!, deve ter pensado.

– Está bem, Ilgo, vou sugerir o teu nome -, resignou-se.

Dias depois eu viajava com o experiente fotógrafo Waldomiro Silva para a minha primeira viagem ao exterior como jornalista.

Foi um sufoco. Poucas vezes escrevi tanto em tão pouco tempo. Eu tinha que mandar material para fechar duas páginas diárias da Folha da Tarde. A Folha da Manhã e o Correio do Povo também usavam os textos. E não havia essas facilidades de hoje, computador, internet. Escrevia no telex, gravava o texto numa fita de papel, depois discava para o jornal para fazer a transmissão. O serviço de telefonia também não era lá essas coisas. Algumas vezes, as matérias menores eu transmitia direto, sem gravar, por causa do horário de fechamento dos jornais. Era uma pauleira.

O bom é que convivi com alguns dos argentinos que recém haviam conquistado a Copa do Mundo, como o técnico César Menotti, um cavalheiro, sempre atencioso, e craques como Alonso, do River Plate. Contra o Inter,  ele fez um dos gols mais bonitos que já vi:  envolveu a defesa com balõezinhos, dribles curtos e um chute seco.

Quando retornei, uns 15 dias depois, estava convencido de que nada mais iria me abalar, estava pronto para qualquer desafio como jornalista.

Um ano depois, fui transferido para o setor do Grêmio. Até ali, eu havia trabalhado com o Alberto Blum, que era editor do Inter, um grande profissional, ético e compenetrado. O editor de Grêmio era Nilson Souza, dono de um texto impecável, sensível, conciso, e que hoje brilha na Zero Hora. Com o Nílson aprendi a ter uma outra forma de olhar os fatos, de buscar a notícia, de redigir. Fizemos boas reportagens e demos alguns furos na concorrência, leia-se ZH. Nesse período fiz setor com o saudoso Paulo Acosta, que tinha sempre uma piada na ponta da língua, e muita gente boa que continua por aí, como o Marco Antonio Schuster. 

Havia uma relação de amizade muito forte entre os setoristas naquela época, e não é diferente hoje. Claro, cada um lutando para furar o outro. Em 1981, durante o Campeonato Brasileiro, os setoristas azuis, digamos assim, decidiram se unir para convencer o técnico Ênio Andrade a escalar alguns juniores que não conseguiam assumir a titularidade. Entre eles os laterais Paulo Roberto e Casemiro (reservas de Uchoa e Dirceu ‘Jarrão’), o zagueiro Newmar, e o ponta Odair. Sem falar no Portaluppi, que dava show nos juniores. 

Então, quando eles se destacavam nos coletivos, o que acontecia seguidamente, nós dizíamos (por TV, rádio e jornal) que eles mereciam mais oportunidades. Quer dizer, ninguém mentia ou exagerava, eram os fatos. A torcida passou a cobrar a presença da gurizada na equipe. Estou convencido de que temos uma minúscula parcela na conquista do título brasileiro daquele ano.

Além desse ‘jornalismo participativo’, eu era obcecado por dar notícia em primeira mão, o que foi reforçado na nova fase do Correio do Povo. O editor, Hiltor Mombach, pensava da mesma forma. A gente dizia que o CP – ao menos na editoria de esportes – no novo formato, com 16, 20 páginas no início, seria um ‘mosquitinho’ para fustigar a ZH. Nosso maior trunfo era a contracapa inteira. E tínhamos também uma postura crítica, dura às vezes. Ríamos imaginando um dirigente da dupla se esgasgando no café da manhã ao ler uma manchete corrosiva do pequeno grande CP. 

 

 

Éramos incansáveis, e insaciáveis, na briga pelo furo. Particularmente, posso assegurar que bati muito mais do que apanhei. Confesso que algumas vezes apelei. Por exemplo, em 1987, a ZH anunciou o Grêmio estava trazendo um determinado zagueiro uruguaio. Chequei e era verdade. Estava levando um furo da concorrência Descobri que era um zagueiro ruim. Pesquisei uma alternativa melhor. Encontrei o Astengo, do Colo-Colo, e que depois defendeu a seleção chilena.

Lancei o nome do Astengo, com elogios de jornalistas chilenos, frisando que ele poderia ser negociado facilmente. Era dono do passe. Destaquei seu apelido: leão, pela bravura e pela vasta cabeleira. Depois de três dias de campanha, Astengo foi contratado. O ‘Leão dos Andes’ não foi grande coisa aqui, mas acho que com aquele uruguaio seria pior. Num lance só neutralizei o furo e dei a notícia exclusiva.

Em 1993, em janeiro, descobri que não seria difícil trazer Dener, da Portuguesa, para o futebol gaúcho. Setorista do Grêmio – foi um período em que fiz setor por telepatia, conforme costumava brincar, praticamente sem ir ao Olímpico -, telefonei para o então presidente Fábio Koff. Ele se interessou. O CP deu a notícia do interesse com exclusividade. Koff venceu a disputa com outros clubes e conseguiu trazer Dener, um dos melhores jogadores que vi atuar, e que morreu um ano depois de forma trágica. 

Então, alguns dos furos que dei foram dessa forma: sugerindo nomes, participando. Foi assim no caso da interdição do Olímpico, que o Correio do Povo noticiou com exclusividade no final de julho de 1990. Meses antes, eu havia conseguido provas de que alguns setores do Olímpico poderiam desabar. Apurei que em fevereiro de 1989 a Brigada Militar havia comunicado ao Grêmio e aos órgãos competentes da Prefeitura sobre esse risco. A informação saiu na imprensa em pequenas notas, mas ninguém deu muita bola, porque um “pouco de balanço é mesmo normal”, conforme cansei de ouvir. 

Outros episódios de oscilação exagerada das arquibancadas, em especial junto ao local destinado ao placar, foram se sucedendo. A direção do CP ficou receosa de publicar o farto material que recolhi. Foi aí que acionei a Federação Gaúcha de Futebol. O Olímpico precisava de uma reforma urgente.

O caso só foi levado a sério mesmo quando o estádio oscilou mais forte no Gre-Nal de 29 de julho. Na noite seguinte, às 22h, eu estava na redação quando recebi uma ligação de um dirigente da FGF me convidando a participar de uma reunião que estava em andamento na entidade. É lógico que larguei tudo e saí, alertando o Hiltor para segurar a contracapa.

Havia umas 15 pessoas na sala do presidente Rubens Hofmeister. Ele perguntou se toda a documentação que eu havia encaminhado tinha mesmo veracidade. Eu confirmei, claro. Diante do que relatei, Hofmeister, com aquele seu jeitão, declarou que iria interditar o Olímpico, e seria naquele momento. Fiquei por ali e até dei alguns pitacos no texto, concluído perto da meia-noite.

Enviei a nota da interdição por fax para o Hiltor (sem internet era tudo mais difícil, mas não impedia que se fizesse bom jornalismo). Ele perguntou se eu queria um carro. Eu preferi voltar para a redação caminhando pela Sete de Setembro, saboreando aquela vitória, não pelo furo, mas porque estava certo de que havia prestado um importante serviço à sociedade. O Olímpico foi reformado e ninguém morreu, que é o que eu mais temia. Jornalismo também é isso. 

Depois desse episódio, passei a fazer matérias mais trabalhadas, com um viés sociológico, com as quais conquistei cinco prêmios ARI de reportagem esportiva, todos pelo CP, de onde pedi demissão no dia 1º de abril de 2010.